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    Mieloma múltiplo: está entre os 3 cânceres do sangue mais comuns no Brasi

    Ele afeta os plasmócitos da medula óssea e compromete a produção normal de células sanguíneas e a saúde dos ossos

    Fonte: Dr. Sandro MelimHematologistaPublicado em 01/07/2026, às 15:51 - Atualizado em 01/07/2026, às 15:51

    mieloma múltiplo

    Cerca de 7.600 novos casos de mieloma múltiplo são diagnosticados no país a cada ano. Apesar da prevalência, é uma doença pouco conhecida: uma pesquisa da Abrale (Associação Brasileira de Câncer do Sangue) realizada em 2023 com 164 pacientes mostrou que 94% deles nunca tinham ouvido falar sobre o mieloma antes de receber o diagnóstico. 

    Os sintomas são inespecíficos e se confundem com outras condições comuns, o que frequentemente atrasa o diagnóstico. Mas com os recursos disponíveis hoje, o tratamento evoluiu muito e muitos pacientes alcançam remissões longas com boa qualidade de vida.

    Mieloma múltiplo: o que é? 

    O mieloma múltiplo é um câncer que tem origem na medula óssea, o tecido esponjoso localizado no interior dos ossos responsável pela produção de todas as células do sangue. Ele afeta especificamente os plasmócitos, células do sistema imunológico derivadas dos linfócitos B e responsáveis pela produção de anticorpos que combatem infecções.  

    No mieloma múltiplo, uma mutação genética faz com que plasmócitos anormais se multipliquem de forma descontrolada na medula óssea. Essas células malignas passam a produzir grandes quantidades de um anticorpo defeituoso e inútil – chamado de proteína monoclonal ou proteína M – que se acumula no sangue e na urina sem exercer nenhuma função protetora. 

    Com a proliferação das células do mieloma, a medula óssea perde progressivamente a capacidade de produzir células sanguíneas normais, o que resulta em anemia, maior susceptibilidade a infecções e problemas de coagulação. Além disso, no mieloma múltiplo ocorre um desequilíbrio na renovação do tecido ósseo, levando a maior destruição óssea que gera enfraquecimento do osso, causando lesões nos ossos e fraturas. 

    O nome “múltiplo” reflete o fato de que a doença costuma afetar vários ossos ao mesmo tempo – especialmente coluna vertebral, costelas, bacia, crânio e fêmur. 

    Fatores de risco 

    O mieloma múltiplo resulta de mutações genéticas adquiridas ao longo da vida nas células plasmáticas. Ou seja: não são mutações herdadas dos pais. E os principais fatores de risco identificados são: 

    • Idade: é mais frequente em pessoas acima dos 60 anos. É raro antes dos 40 anos; 
    • Sexo: homens têm risco ligeiramente maior do que mulheres; 
    • Raça: pessoas negras têm duas vezes mais chance de desenvolver mieloma múltiplo do que pessoas brancas – razão ainda não completamente explicada; 
    • Gamopatia monoclonal de significado indeterminado (MGUS): condição em que níveis anormais de proteína monoclonal são detectados no sangue sem causar sintomas. É considerada um estado precursor do mieloma – cerca de 1% dos pacientes com MGUS progridem para mieloma a cada ano; 
    • Plasmocitoma solitário: presença de um único tumor de plasmócitos, sem envolvimento generalizado da medula. Pode evoluir para mieloma múltiplo; 
    • Histórico familiar: parentes de primeiro grau de pacientes com mieloma têm risco levemente aumentado; 
    • Obesidade: estudos sugerem associação entre excesso de peso e maior risco de mieloma; 
    • Exposição à radiação ionizante e a determinados produtos químicos, como pesticidas e solventes.

    Sintomas

    O mieloma múltiplo pode ser assintomático por meses ou anos, principalmente nas fases iniciais. Quando os sintomas aparecem, costumam ser vagos e facilmente confundidos com outras condições, como problemas na coluna, anemia comum ou infecções respiratórias frequentes. 

    Os mais comuns e característicos são: 

    Dor óssea 

    É o sintoma mais frequente e muitas vezes o primeiro a aparecer. A dor é causada pela destruição do tecido ósseo pelas células do mieloma e pela presença de lesões líticas – “buracos” nos ossos visíveis nos exames de imagem.  

    A região mais afetada é a coluna vertebral, seguida das costelas, bacia e crânio. A dor costuma piorar com o movimento e pode estar associada a fraturas espontâneas – que acontecem sem trauma significativo. 

    Anemia 

    A substituição das células normais da medula pelas células do mieloma reduz a produção de glóbulos vermelhos, causando anemia. Os sintomas são cansaço intenso, fraqueza, falta de ar ao esforço e palidez. 

    Infecções frequentes 

    Os plasmócitos malignos não produzem anticorpos funcionais – e ainda suprimem a produção de anticorpos normais. O resultado é um sistema imunológico enfraquecido, com maior susceptibilidade a infecções bacterianas e virais, especialmente pulmonares. 

    Comprometimento renal 

    O excesso de proteína monoclonal no sangue sobrecarrega os rins – que precisam filtrar e eliminar esse excesso. Com o tempo, o acúmulo de proteína nos túbulos renais pode causar insuficiência renal. Sintomas como redução do volume urinário, inchaço nos membros e fadiga podem indicar comprometimento dos rins. 

    Hipercalcemia 

    A destruição dos ossos libera cálcio na corrente sanguínea, elevando seus níveis acima do normal. A hipercalcemia causa náuseas, vômitos, sede excessiva, confusão mental, constipação e, nos casos graves, arritmias cardíacas. 

    Neuropatia periférica 

    Formigamento, dormência e sensação de queimação nas mãos e nos pés são causados tanto pela doença em si quanto por alguns medicamentos usados no tratamento, como o bortezomibe e a talidomida. 

    Quando procurar por um médico? 

    O mieloma múltiplo raramente é diagnosticado em exames de rotina – a maioria dos pacientes chega ao médico por causa dos sintomas. Por isso, é importante não ignorar sinais que persistam por semanas sem explicação. 

    Procure avaliação médica se você apresentar: 

    • Dor nas costas ou nos ossos persistente e sem histórico de trauma ou esforço; 
    • Cansaço intenso e falta de ar desproporcional ao esforço físico; 
    • Infecções repetidas, como pneumonias e infecções respiratórias; 
    • Fratura em situações de baixo impacto; 
    • Sede excessiva, confusão mental ou náuseas sem causa aparente; 
    • Alterações nos exames de rotina, como proteína elevada no sangue ou na urina, anemia sem causa identificada ou função renal alterada.

    O especialista indicado para o diagnóstico e tratamento do mieloma múltiplo é o hematologista, médico especializado em cânceres do sangue e da medula óssea. 

    Exames que auxiliam no diagnóstico do mieloma múltiplo 

    O diagnóstico do mieloma múltiplo exige a combinação de exames laboratoriais, de imagem e análise da medula óssea. É o conjunto de achados que define o quadro. 

    E exames geralmente solicitados são: 

    • Hemograma completo: avalia a presença de anemia e a contagem de células sanguíneas. É frequentemente o primeiro exame a mostrar alterações; 
    • Eletroforese de proteínas séricas e urinárias: detecta e quantifica a proteína monoclonal (proteína M) no sangue e na urina. É um dos exames mais importantes para suspeitar e monitorar o mieloma; 
    • Imunofixação ou imunoeletroforese de proteínas do sangue e da urina; 
    • Dosagem de imunoglobulinas: avalia os níveis de IgG, IgA, IgM e cadeias leves livres no sangue; 
    • Função renal e cálcio sérico: para avaliar o comprometimento dos rins e a hipercalcemia; 
    • Exames de imagem: tomografia de corpo inteiro, ressonância magnética e PET-CT são usados para avaliar lesões ósseas e a extensão da doença; 
    • Mielograma e biópsia de medula óssea: são os exames confirmatórios. A análise da medula permite identificar o percentual de plasmócitos malignos e confirmar o diagnóstico; 
    • Imunofenotipagem: caracteriza as células do mieloma por meio de marcadores de superfície, auxiliando na classificação e no monitoramento da doença.

    FISH – Painel para mieloma múltiplo 

    O exame de FISH (Hibridização in situ por fluorescência) para mieloma múltiplo é uma análise citogenética molecular realizada na amostra de medula óssea. Ele identifica alterações cromossômicas específicas nas células do mieloma – como deleções, translocações e amplificações – que influenciam diretamente no prognóstico e na escolha do tratamento. 

    As alterações mais pesquisadas no painel para mieloma incluem: 

    • Del(17p): deleção no cromossomo 17, associada ao pior prognóstico; 
    • t(4;14), t(14;16) e t(14;20): translocações de alto risco; 
    • t(11;14): translocação associada a melhor resposta a determinados tratamentos; 
    • Ganho do cromossomo 1q: também configura prognóstico desfavorável, principalmente quando associado a outras alterações cromossômicas de alto risco.

    O resultado do FISH é indispensável para classificar o risco do paciente e personalizar o protocolo de tratamento. Os laboratórios Delboni e  Alta Diagnósticos realizam o FISH – Painel para Mieloma Múltiplo. Para consultar preços e agendar, basta acessar a nossa plataforma digital.

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    Tratamentos para o mieloma múltiplo 

    No mieloma múltiplo, geralmente, não se fala em cura, o objetivo dos tratamentos disponíveis atualmente é alcançar a remissão – redução ou eliminação das células do mieloma detectáveis -, controlar os sintomas, evitar desenvolvimento de disfunções orgânicas e oferecer a melhor qualidade de vida possível pelo maior tempo possível. 

    O tratamento avançou enormemente nas últimas duas décadas, com o surgimento de novas classes de medicamentos que transformaram o prognóstico da doença. A escolha do protocolo depende da idade, das condições clínicas, do perfil de risco molecular e da elegibilidade para transplante de células-tronco. 

    Tratamento de primeira linha 

    O protocolo inicial combina geralmente três ou, preferencialmente, quatro classes de medicamentos, chamados esquemas “triplets” ou “quadruplets”: 

    • Inibidores de proteassoma – como o bortezomibe: bloqueiam a degradação de proteínas dentro das células do mieloma, levando à sua morte. São amplamente usados em combinação com outros agentes; 
    • Anticorpos Monoclonais Anti-CD38 como o daratumumabe e isatuximabe; quando combinados com inibidores de proteassoma e imunomoduladores, mostram resultados expressivos em sobrevida livre de progressão. 
    • Imunomoduladores, como a lenalidomida e a talidomida: modulam o sistema imunológico e têm efeito direto sobre as células do mieloma; 
    • Corticoides, como a dexametasona: potencializam o efeito dos outros medicamentos e têm ação anti-inflamatória e antitumoral.

    Transplante autólogo de células-tronco 

    Para pacientes elegíveis – avaliados individualmente quanto às funções orgânicas e ao estado funcional, independentemente da idade cronológica, geralmente abaixo dos 70  – 75 anos – o transplante autólogo de células-tronco hematopoéticas é a consolidação padrão após a resposta inicial ao tratamento.  

    As próprias células-tronco do paciente são coletadas, o paciente recebe quimioterapia em altas doses para eliminar as células do mieloma e, em seguida, as células-tronco são reinfundidas para restaurar a medula óssea. 

    Tratamento de manutenção 

    Após o transplante ou após a resposta ao tratamento inicial, a manutenção com lenalidomida oral está estabelecida como padrão para prolongar a remissão e retardar a recidiva. 

    Tratamento de recidiva 

    A recidiva – reaparecimento da doença após remissão – é a regra no mieloma múltiplo. A cada recidiva, novas linhas de tratamento são necessárias. E as opções seriam: 

    • Novas combinações com os mesmos agentes das linhas anteriores; 
    • Anticorpos biespecíficos: elranatamabe, teclistamabe e talquetamabe; 
    • Anticorpo conjugado a droga (ADC): como o belantamabe mafodotin, aprovado recentemente pela Anvisa; 
    • Terapia com células CAR-T: ainda em expansão no Brasil, com perspectivas promissoras para pacientes com doença refratária.

    Tratamentos de suporte 

    São fundamentais ao longo de todo o tratamento: 

    • Bifosfonatos e denosumabe, para proteger os ossos e reduzir o risco de fraturas; 
    • Fatores estimulantes de eritropoese e transfusões, para manejo da anemia; 
    • Antibióticos profiláticos e vacinas, para reduzir o risco de infecções; 
    • Analgésicos e radioterapia paliativa, para controle da dor óssea.

     

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