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    Poderemos viver até 130 anos. Está preparado?

    O controle dos hábitos e o monitoramento de dados genéticos podem nos deixar saudáveis por mais tempo

    Por Tiemi OsatoPublicado em 29/04/2022, às 18:58 - Atualizado em 01/06/2026, às 19:36

    É isso mesmo que você leu no título. As pessoas que hoje são chamadas de “supercentenárias” poderão ser mais comuns no futuro do que imaginamos. Mas vamos com calma, porque falar de envelhecimento não é tão simples. 

    O próprio limite da longevidade humana é alvo de muita discussão no campo da ciência. Os 130 anos aos quais nos referimos aqui são fruto de um estudo publicado em 2021 que analisou dados de idosos acima de 105 anos. 

    Disponível no periódico Royal Society Open Science, o artigo mostra que, embora o risco de morte cresça conforme o tempo passa, há um momento em que se atinge um platô e a probabilidade se mantém em 50%. Depois dos 110, viver mais um ano ou não é quase como jogar “cara ou coroa”. 

    Os pesquisadores responsáveis pelo trabalho acreditam que os humanos podem viver ao menos até os 130 anos — e que veremos isso ainda neste século. E destacam que essa realidade depende de avanços médicos e sociais. Antes de olharmos para eles, no entanto, vale entender o que exatamente caracteriza o envelhecimento. 

    Por que (e como) envelhecemos? 

    Não há uma única resposta. “Existem diversas teorias”, diz Elaine Barbosa, especialista em clínica médica e geriatria pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) e médica do corpo clínico do Hospital Nove de Julho. “Atualmente, aceita-se que o envelhecimento é a interação entre a genética e fatores extrínsecos ao organismo, como estilo de vida, nutrição e atividade física”, esclarece. 

    Nessa etapa da vida, as células passam por mudanças degenerativas. Na prática, significa que nossos órgãos passam a ter mais dificuldade para funcionar da maneira adequada. Isso se aplica também às nossas habilidades de adaptação ao ambiente, que entram em declínio progressivo. 

    “Essas alterações são esperadas e não necessariamente causam doenças. Algumas podem predispor as pessoas a elas, mas diversos mecanismos de interação com o meio externo podem ser determinantes na consolidação de uma patologia”, explica Barbosa. 

    Poderemos viver por mais tempo e com mais saúde? 

    Teoricamente sim. “Hoje o senso comum na ciência é de que se pode interferir diretamente na qualidade e nas características do envelhecimento, mas não freá-lo”, declara Christiane Machado, diretora científica da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG).  

    No entanto, ainda trata-se de um desafio que diversas áreas do conhecimento têm tentado solucionar. Envelhecimento é, inclusive, o tema central de um dos best sellers do New York Times. No livro “Tempo de vida: por que envelhecemos — e por que não precisamos”, o geneticista David Sinclair defende que hábitos diários específicos são fundamentais para uma maior longevidade acompanhada de saúde. 

    Professor na Escola de Medicina de Harvard, ele afirma que o nosso modo de vida é o principal influenciador da maneira como envelhecemos. Sendo assim, ingerir determinados alimentos, controlar a ingestão calórica e praticar atividades físicas são tarefas imprescindíveis. 

    A lógica por trás é a seguinte: fome, falta de fôlego e a sensação de frio ou calor seriam caminhos para acionar nossas defesas naturais contra doenças e o envelhecimento. Em termos mais técnicos, hábitos cotidianos são capazes de afetar o epigenoma — sistemas que dizem às células quais genes devem funcionar e quando, mas que falham ao longo do tempo. 

    O geneticista afirma que um dos pilares do seu pensamento consiste em enxergar a velhice como patologia. Essa é uma perspectiva não consensual entre os membros da comunidade científica e que vai na contramão da Organização Mundial da Saúde (OMS). 

    Embora haja um grande debate em torno desse tópico, é importante ressaltar que também existem fatos bem estabelecidos. O impacto do estilo de vida na saúde a longo prazo, por exemplo, é amplamente reconhecido pelos cientistas. Nesse sentido, um elemento central é a alimentação. 

    O que comemos ou bebemos pode beneficiar (ou prejudicar) a microbiota intestinal. São justamente esses microrganismos que habitam nossa microbiota que, além de auxiliarem na digestão, produzem vitaminas e neurotransmissores muito úteis para a imunidade e até para a saúde mental. Não à toa o intestino carrega o apelido de “segundo cérebro”.  

    “Noventa por cento da nossa serotonina, o hormônio da felicidade, é produzido por bactérias intestinais. E a gente sabe que pessoas com diminuição de serotonina no sistema nervoso central estão mais propensas à depressão”, exemplifica Alessandro Vieira, consultor de microbiologia clínica e molecular da GeneOne e professor na Universidade Regional de Blumenau (Furb).  

    Uma lógica semelhante pode ser aplicada ao neurotransmissor Gaba e os transtornos de ansiedade, déficit de atenção e hiperatividade. 

    Sabe-se ainda que as células do sistema imunológico são moduladas por bactérias intestinais. Essa ligação faz com que o desequilíbrio da microbiota intestinal se aproxime de doenças crônicas, estresse, inflamações, piora da saúde mental e encurtamento dos telômeros (sequências de DNA que diminuem conforme envelhecemos). 

    Para que as bactérias joguem no nosso time, precisamos garantir quatro elementos: alimentação saudável, natural e diversificada, sono de qualidade, exercícios físicos com regularidade e manejo do estresse. “É o que a gente encontra em pacientes que têm uma microbiota equilibrada e, por consequência, tendem a viver mais e melhor”, afirma Vieira. 

    E a tecnologia nessa história? 

    É na genética que se encontram altas expectativas quando falamos de saúde. Quanto mais conhecermos nosso corpo, mais chances teremos de preservá-lo. Partindo dessa perspectiva, um exame genético pode abrir várias portas. 

    Vamos imaginar uma pessoa com uma variante genética que compromete a eficiência de uma enzima. A questão é que a tal enzima possui uma capacidade antioxidante e serve para combater radicais livres no organismo (moléculas instáveis associadas a doenças). Ter um problema nessa proteína não é bom. Mas se a informação for conhecida pelo indivíduo, ele pode buscar orientações médicas para aumentar a produção da enzima. 

    A edição de DNA possibilitada pelo CRISPR também é um avanço relevante, podendo otimizar as terapias gênicas. Essa técnica permite que, ao identificar uma mutação que leva a algum quadro patológico, haja a perspectiva de trocar a base prejudicial, minimizando o risco de desenvolver a doença. 

    No futuro, a genética provavelmente irá permitir, por exemplo, a produção de órgãos para transplante a partir do DNA do próprio indivíduo doente, o que eliminaria as chances de rejeição. 

    Mas não existem milagres. Apesar de estarem sendo conduzidos estudos para retardar ou reverter o envelhecimento, além de testes para buscar novos medicamentos, não há perspectiva para o desenvolvimento de uma técnica capaz de aumentar a longevidade por si só. 

    O esperado é que um conjunto de metodologias sejam utilizadas para entender os pacientes (e seus dados genéticos) de forma completa para oferecer soluções personalizadas visando a saúde. 

    E Elaine Barbosa lembra que não podemos esquecer o básico. “Se continuarmos com o consumo de ultraprocessados, usarmos a tecnologia para intensificar nosso sedentarismo e optarmos pela individualidade em detrimento do convívio em sociedade, nada impede que a curva de expectativa de vida caia”, diz. “Nossa lição de casa inclui oferecer, para a maior parte das pessoas, boas condições de vida, com água potável e alimentos mais naturais.” 

    Em termos populacionais, não tem como prever quando (e se) alcançaremos a marca dos 130 anos. Aumentar nossa longevidade e fazer com que ela seja acompanhada de saúde, porém, é viável — basta utilizarmos, com inteligência, as informações à nossa disposição. 

    “Poder viver 100 anos tem sido o presente. A população nonagenária e centenária tem sido a que mais cresce e isso tem transformado as pirâmides populacionais de todo o mundo”, observa Christiane Machado. Em 1920, a expectativa de vida no Brasil era de 34,5 anos. Em 2020, ela passou para 76,8. O que será que vem por aí?

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