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    Hiperêmese gravídica não é enjoo comum e precisa de tratamento

    A condição afeta entre 0,3% e 3% das gestações e pode exigir hidratação intravenosa ou internação

    Fonte: Dra. Adriana Bittencourt CampanerGinecologistaPublicado em 21/05/2026, às 17:12 - Atualizado em 21/05/2026, às 17:12

    Hiperêmese gravídica

    hiperêmese gravídica é uma condição debilitante da gravidez e ainda bastante subestimada. Diferente do enjoo matinal, que é comum e costuma melhorar até o fim do primeiro trimestre, ela se caracteriza por náuseas intensas e vômitos persistentes que impedem a gestante de se alimentar e se hidratar adequadamente. 

    Segundo uma revisão publicada no PubMed em 2024, a condição afeta entre 0,3% e 3% de todas as gestações e é uma das principais causas de internação no início da gravidez.  

    Muitas mulheres relatam dificuldades para trabalhar, cuidar de outros filhos e manter a rotina. E o sofrimento emocional associado ao quadro é real e precisa ser levado a sério.

    Hiperêmese gravídica: o que é? 

    A hiperêmese gravídica é a forma mais grave de náuseas e vômitos na gravidez. Enquanto o enjoo matinal afeta até 75% das gestantes e costuma ceder até a 12ª ou 14ª semana, a hiperêmese é persistente, intensa e compromete diretamente a qualidade de vida e o estado nutricional da gestante. 

    O quadro começa, em geral, entre a 4ª e a 6ª semana de gestação, atinge o pico entre a 8ª e a 12ª semana e costuma melhorar até a 20ª semana. Em alguns casos, no entanto, os sintomas persistem até o final da gravidez. 

    Para ser classificada como hiperêmese gravídica, a condição precisa preencher critérios clínicos específicos: vômitos mais de três vezes ao dia, perda de mais de 5% do peso pré-gestacional e sinais de desidratação, como urina escura e em menor volume, tontura e fraqueza intensa. Quando esses critérios estão presentes, o tratamento deve ser imediato. 

    Possíveis causas para a hiperêmese gravídica 

    Ainda não conhecemos a causa exata da hiperêmese gravídica e nem a razão pela qual algumas gestantes desenvolvem a forma grave enquanto a maioria tem apenas enjoo leve ou moderado. Mas sabemos que está ligada às mudanças hormonais intensas do início da gravidez.  

    A principal hipótese aponta para o hormônio hCG (Beta HCG), produzido pela placenta logo após a implantação do embrião. Os níveis desse hormônio sobem rapidamente no primeiro trimestre (período em que a hiperêmese é mais intensa) e caem quando a condição tende a melhorar. Gestações com níveis mais altos de hCG, como as gemelares ou a mola hidatiforme, estão associadas a quadros mais graves.  

    A Mola Hidatiforme é uma alteração da gravidez em que a placenta se desenvolve de forma anormal, formando pequenas bolsas parecidas com “cachos de uva”, e o bebê geralmente não se desenvolve. 

    Os hormônios na gravidez, como o estrogênio, também são apontados como possíveis fatores, já que interferem na motilidade do estômago e no sistema nervoso central, que regula o reflexo do vômito. 

    Outros fatores associados ao desenvolvimento da hiperêmese gravídica são: 

    • Histórico familiar ou pessoal: mulheres que tiveram hiperêmese em gestações anteriores têm risco aumentado de recorrência. A condição também tende a ser mais frequente em filhas e irmãs de mulheres que a tiveram; 
    • Primeira gravidez: gestantes primíparas têm maior probabilidade de desenvolver o quadro; 
    • Gestação múltipla: gêmeos ou trigêmeos elevam os níveis de hCG, aumentando o risco; 
    • Infecção por Helicobacter pylori: estudos mostram associação entre a bactéria causadora de úlceras e a hiperêmese gravídica; 
    • Histórico de enjoo em viagens ou uso de anticoncepcionais hormonais: pode indicar maior sensibilidade hormonal; 
    • Fatores psicossociais: estresse e ansiedade não causam a hiperêmese, mas podem agravar os sintomas. 

    Sintomas de hiperêmese gravídica 

    Os sintomas da hiperêmese gravídica são náuseas e vômitos constantes, em uma intensidade muito maior que a de uma gravidez comum.

    Na hiperêmese, a gestante não consegue manter alimentos nem líquidos, o que leva rapidamente à desidratação (com sintomas como urina escura, em menor volume ou ausente por longos períodos) e à perda de peso, que podem ser superior a 5% do peso pré-gestacional. 

    Outros possíveis sintomas seriam: 

    • Tontura e sensação de cabeça leve, especialmente ao se levantar 
    • Fraqueza e cansaço extremos 
    • Salivação excessiva 
    • Intolerância a cheiros, sabores ou texturas de alimentos 
    • Pressão arterial baixa 
    • Frequência cardíaca acelerada 

    Nos casos mais graves, a hiperêmese pode levar a complicações sérias, como desequilíbrio de eletrólitos (sódio, potássio e magnésio), deficiência de tiamina (vitamina B1) – que pode causar danos neurológicos se não tratada e até ruptura do esôfago por esforço repetido ao vomitar, embora esta última seja rara. 

    Muitas gestantes desenvolvem ansiedade, depressão e isolamento social durante a hiperêmese. Esses sintomas emocionais merecem atenção e cuidado, tanto quanto os físicos. 

    Quando procurar por um médico? 

    Qualquer gestante com enjoo e vômitos que estejam interferindo na alimentação e na hidratação deve comunicar o obstetra que faz o acompanhamento pré-natal 

    Mas ela deve procurar atendimento médico com urgência se: 

    • Os vômitos acontecem mais de três vezes ao dia e não melhoram; 
    • Não consegue manter nenhum alimento ou líquido por mais de 24 horas; 
    • Percebe que está urinando muito pouco ou com urina escura; 
    • Sente tontura intensa, especialmente ao se levantar; 
    • Perdeu peso de forma perceptível desde o início da gravidez; 
    • Sente fraqueza extrema ou tem dificuldade para realizar atividades simples; 
    • Apresenta dor abdominal, febre ou sangramento junto com os vômitos, o que pode indicar outras condições que precisam ser descartadas. 

    A hiperêmese gravídica não melhora sozinha com repouso ou ajustes alimentares quando já está instalada. O tratamento precoce evita complicações e melhora muito o bem-estar da gestante. 

    Exames que auxiliam no diagnóstico da hiperêmese gravídica 

    Na fase de diagnóstico, o médico avalia o histórico de sintomas, o tempo de evolução, a frequência dos vômitos, a perda de peso e os sinais de desidratação. Outras causas de vômito na gravidez precisam ser descartadas. 

    Os exames mais solicitados costumam ser: 

    • Exame de urina (urinálise): detecta cetonúria, ou seja, a presença de corpos cetônicos na urina, sinal de que o organismo está usando gordura como fonte de energia por falta de alimentação adequada. E avalia o grau de desidratação. 
    • Hemograma completo: avalia o estado geral do sangue e descarta infecções ou anemia. 
    • Eletrólitos séricos: sódio, potássio, cloro e magnésio — desequilíbrios são comuns na hiperêmese e precisam ser corrigidos. 
    • Função renal: creatinina e ureia, que ajudam a avaliar se a desidratação está afetando os rins. 
    • Função hepática: enzimas TGO e TGP, que podem estar alteradas nos casos mais graves. 
    • Beta HCG quantitativo: confirma a gravidez e, em alguns casos, ajuda a identificar gestações múltiplas ou mola hidatiforme, condições associadas a quadros mais intensos de hiperemese. 
    • TSH e hormônios da tireoide: o hipertireoidismo transitório da gestação pode coexistir com a hiperêmese e precisa ser avaliado. 
    • Ultrassonografia obstétrica: verifica a viabilidade da gestação, descarta gestação múltipla e mola hidatiforme. 

    Em casos de internação, os exames são repetidos periodicamente para monitorar a resposta ao tratamento e ajustar a reposição de eletrólitos e nutrientes.

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    Tratamentos para a hiperêmese gravídica 

    O tratamento da hiperêmese gravídica depende da gravidade do quadro. Nos casos leves a moderados, é possível tratar em casa com orientações médicas. Nos casos graves, a internação hospitalar é necessária. 

    Tratamento ambulatorial (em casa) 

    Quando a gestante ainda consegue manter alguma quantidade de líquido, o médico pode indicar: 

    • Antieméticos (medicamentos contra enjoo e vômito), como a metoclopramida, ondansetrona ou prometazina. Sempre com prescrição médica e avaliação do risco-benefício na gravidez. 
    • Suplementação de vitamina B6 (piridoxina), isolada ou combinada com doxilamina. A combinação é uma das abordagens mais estudadas para náuseas na gravidez. 
    • Suplementação de tiamina (vitamina B1) para prevenir complicações neurológicas. 
    • Refeições pequenas e frequentes, alimentos frios ou em temperatura ambiente (que tendem a ter menos cheiro), evitar alimentos gordurosos ou muito condimentados. 

    Tratamento hospitalar 

    A internação é indicada quando há desidratação significativa, perda de peso importante ou quando os medicamentos orais não estão funcionando. No hospital, o tratamento envolve: 

    • Hidratação intravenosa com soro fisiológico ou Ringer lactato para corrigir a desidratação e repor eletrólitos 
    • Antieméticos intravenosos, com ação mais rápida e eficaz que os orais 
    • Reposição de tiamina intravenosa nos casos de deficiência 
    • Em casos muito graves e prolongados, nutrição parenteral (administrada diretamente na veia) pode ser necessária para garantir o aporte nutricional da mãe e do bebê 

    A hiperêmese gravídica não prejudica o bebê diretamente. Ou seja: o esforço do vômito, por si só, não causa danos ao feto. Mas a desnutrição e a desidratação graves e prolongadas, se não tratadas, podem trazer riscos à gestação. Por isso, o tratamento precoce é fundamental. 

    Formas de aliviar o enjoo durante a gravidez 

    Para gestantes com enjoo leve a moderado, que não chega a caracterizar hiperêmese gravídica, algumas medidas simples podem ajudar: 

    • Comer antes de levantar: manter um biscoito de água e sal ou uma torrada na cabeceira e comer antes de sair da cama pode ajudar a reduzir o enjoo matinal. 
    • Refeições pequenas e frequentes: estômago vazio piora a náusea. Comer pouco a cada duas ou três horas ajuda a manter o estômago sempre com algo para digerir. 
    • Evitar cheiros fortes: perfumes, alimentos quentes e ambientes abafados tendem a piorar as náuseas. Ventilar os ambientes ajuda. 
    • Preferir alimentos frios ou em temperatura ambiente: eles liberam menos aroma e costumam ser mais bem tolerados. 
    • Manter-se hidratada: água gelada, água com gás, chá de gengibre ou picolés de frutas naturais podem ser mais tolerados do que líquidos em temperatura ambiente. 
    • Gengibre: tem evidências científicas de eficácia para reduzir náuseas na gravidez. Pode ser consumido em chá, cápsulas ou alimentos — sempre com orientação do obstetra. 
    • Descansar: o cansaço piora a náusea. Priorizar o repouso, especialmente no primeiro trimestre, faz diferença. 
    • Evitar deitar-se logo após comer: aguardar pelo menos 30 minutos antes de se deitar ajuda na digestão e reduz o refluxo. 

    Se as medidas acima não trouxerem alívio ou se o enjoo piorar, não hesite em conversar com o obstetra. Essas estratégias não substituem o tratamento médico quando os sintomas de gravidez são intensos. 

    A hiperêmese gravídica tem tratamento e, quanto antes for identificada, mais rápido a gestante se sente melhor.

     

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