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    Prolapso da válvula mitral é comum e, na maioria dos casos, benigno

    A condição costuma ser descoberta por acaso, em consultas de rotina

    Fonte: Dr. Carlos SuaideCardiologistaPublicado em 15/05/2026, às 09:15 - Atualizado em 14/05/2026, às 14:30

     

    O coração tem quatro válvulas que controlam o fluxo de sangue entre suas câmaras. Quando uma delas não funciona como deveria, o organismo pode sentir as consequências – mas nem sempre de forma perceptível. É o caso do prolapso da válvula mitral 

    A condição afeta cerca de 2% a 3% da população geral, segundo a American Heart Association, e na grande maioria das vezes não causa sintomas nem exige tratamento. Muitas pessoas só ficam sabendo que têm o problema durante um exame de rotina.

    Prolapso da válvula mitral: o que é? 

    A válvula mitral fica entre as duas câmaras esquerdas do coração: o átrio esquerdo e o ventrículo esquerdo. Ela funciona como uma porta de mão dupla — abre para deixar o sangue passar do átrio para o ventrículo e fecha para impedir que ele volte. 

    No prolapso da válvula mitral, as cúspides (as “abas” dessa válvula) são mais frouxas ou elásticas do que o normal. Isso faz com que, a cada batimento, elas se abaulam levemente em direção ao átrio esquerdo, como um paraquedas inflado. 

    E, em alguns casos, esse abaulamento impede que a válvula feche completamente — e um pequeno volume de sangue vaza de volta ao átrio. Esse fenômeno é chamado de regurgitação mitral. 

    Na maioria das pessoas, o prolapso é leve e não afeta o funcionamento do coração de forma significativa. Mas quando a regurgitação é importante, o coração precisa trabalhar mais para compensar o fluxo invertido, o que pode levar a complicações com o tempo. 

    A condição também é conhecida como síndrome de Barlow, nome do médico sul-africano John Brereton Barlow, que a descreveu em detalhes na década de 1960. 

    Possíveis causas para o prolapso da válvula mitral 

    A causa mais comum é a degeneração mixomatosa do tecido valvar — uma alteração no colágeno que compõe as cúspides da válvula, tornando-as mais finas, elásticas e frouxas do que o esperado.  

    Essa alteração pode ser hereditária: a condição tende a se repetir em famílias, e pesquisadores já identificaram genes associados ao seu desenvolvimento, como FLNA, DCHS1, DZIP1 e PLD1. 

    Além da predisposição genética, o prolapso da válvula mitral pode estar associado a outras condições, especialmente doenças do tecido conjuntivo, como: 

    • Síndrome de Marfan 
    • Síndrome de Ehlers-Danlos 
    • Síndrome de Loeys-Dietz 

    Outros fatores que podem aumentar o risco são doença cardíaca reumática (sequela de infecções estreptocócicas não tratadas na infância), escoliose e Doença de Graves (hipertireoidismo autoimune). 

    Prevenção 

    Na maioria dos casos, o prolapso da válvula mitral não pode ser prevenido. Como a causa principal é genética ou estrutural — ligada à forma como o tecido da válvula se desenvolve —, não há medidas específicas que evitem seu surgimento. 

    O que é possível, e importante, é prevenir complicações. E isso, claro, fazemos com um acompanhamento médico regular. Quem já tem o diagnóstico deve manter consultas periódicas com o cardiologista e realizar ecocardiograma com a frequência recomendada pelo médico — que pode variar de cinco em cinco anos nos casos leves até a cada seis meses nos casos mais graves. 

    Além do acompanhamento, adotar hábitos cardiovasculares saudáveis ajuda a proteger o coração de forma geral. Entre eles, podemos mencionar: 

    • Não fumar; 
    • Manter uma alimentação nutritiva e diversificada; 
    • Praticar atividade física regularmente, com acompanhamento; 
    • Controlar o estresse; 
    • Manter a pressão arterial em níveis adequados. 

    Vale lembrar que a American Heart Association não recomenda mais o uso preventivo de antibióticos antes de procedimentos odontológicos para pessoas com prolapso da válvula mitral — exceto em casos em que houve substituição cirúrgica da válvula. 

    O prolapso da válvula mitral apresenta sintomas? 

    A maior parte das pessoas com prolapso da válvula mitral não sente nada. A condição costuma ser silenciosa e, quando descoberta, é em geral por acaso: o médico ouve um estalido característico ao auscultar o coração com o estetoscópio durante uma consulta de rotina. 

    Quando os sintomas aparecem, os mais comuns são: 

    • Palpitações — sensação de batimentos acelerados ou irregulares; 
    • Dor ou desconforto no peito; 
    • Cansaço fácil; 
    • Falta de ar ao fazer esforço; 
    • Tontura ou sensação de cabeça leve. 

    Um ponto importante: nem sempre a presença de sintomas indica que o prolapso é grave. Sintomas e gravidade não andam necessariamente juntos nessa condição — há pessoas com prolapso leve que sentem muito e pessoas com prolapso significativo que não sentem nada. Por isso, sempre vale informar o médico sobre qualquer sintoma novo ou recorrente. 

    Nos casos em que a regurgitação mitral é importante, podem surgir sinais de insuficiência cardíaca, como inchaço nas pernas, cansaço persistente e dificuldade para respirar mesmo em repouso. Arritmias e, mais raramente, acidente vascular cerebral (AVC) também são complicações possíveis nos quadros mais graves. 

    Uma associação que merece atenção é a relação entre prolapso da válvula mitral e ansiedade. Algumas pessoas com a condição relatam episódios de ansiedade, palpitações e dores no peito que podem ser confundidos com crises de pânico.  

    Embora o prolapso não cause ansiedade diretamente, as palpitações que ele provoca podem desencadear ou intensificar quadros ansiosos em pessoas com essa predisposição. 

    Quando procurar por um médico? 

    Se você nunca foi diagnosticado com prolapso da válvula mitral, mas sente palpitações frequentes, dores no peito ou episódios de falta de ar sem explicação clara, procure um cardiologista. Esses sintomas podem ter várias causas, e o prolapso é uma delas. 

    Se você já tem o diagnóstico, procure atendimento médico com mais urgência se: 

    • As palpitações piorarem ou se tornarem muito frequentes; 
    • Sentir falta de ar em repouso ou ao fazer esforços leves; 
    • Tiver episódios de tontura intensa ou desmaio; 
    • Notar inchaço nas pernas ou cansaço progressivo; 
    • Os sintomas mudarem de padrão ou intensidade. 

    Nesses casos, o médico pode solicitar exames para avaliar se houve progressão da regurgitação mitral ou o desenvolvimento de complicações, como arritmias. 

    Quem tem histórico familiar de prolapso da válvula mitral ou de doenças cardiovasculares também deve mencionar isso ao médico, já que a condição pode ser hereditária. 

    Exames que auxiliam no diagnóstico do prolapso da válvula mitral 

    O primeiro passo para o diagnóstico costuma ser a ausculta cardíaca, quando o médico ouve o coração com o estetoscópio. No prolapso da válvula mitral, é comum ouvir um estalido sistólico, às vezes acompanhado de um sopro, que indica o vazamento de sangue pela válvula. 

    O exame mais importante para confirmar o diagnóstico e avaliar a gravidade é o ecocardiograma. Por meio de ultrassom, ele permite visualizar a válvula em movimento, medir o grau de abaulamento das cúspides e quantificar o volume de sangue que está vazando.  

    Em alguns casos, o médico pode solicitar um ecocardiograma transesofágico — feito com um transdutor introduzido pelo esôfago — para imagens mais detalhadas da válvula. 

    Outros exames que podem ser solicitados são: 

    • Eletrocardiograma (ECG): detecta arritmias associadas ao prolapso, como extrassístoles ou fibrilação atrial 
    • Teste ergométrico (esforço): avalia como o coração responde ao exercício físico e se os sintomas aparecem durante o esforço 
    • Holter 24h: monitora o ritmo cardíaco ao longo de um dia inteiro, útil para capturar arritmias intermitentes 
    • Cateterismo cardíaco: raramente usado para o diagnóstico do prolapso em si, mas pode ser indicado em casos específicos onde outros exames não foram conclusivos, conforme avaliação do cardiologista. 

    A frequência com que esses exames devem ser repetidos depende da gravidade do caso. Prolapsos leves sem regurgitação significativa podem ser monitorados com um ecocardiograma a cada cinco anos. Já os casos mais graves exigem acompanhamento mais próximo.

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    Formas de tratamento 

    A maioria das pessoas com prolapso da válvula mitral não precisa de nenhum tratamento específico. Quando não há regurgitação significativa e os sintomas são ausentes ou leves, o acompanhamento periódico já é suficiente. 

    Quando o tratamento é necessário, o médico escolhe a abordagem de acordo com os sintomas e a gravidade da regurgitação. 

    Medicamentos  

    São indicados para controlar sintomas e complicações: 

    • Betabloqueadores: reduzem as palpitações, controlam a frequência cardíaca e aliviam a dor no peito 
    • Diuréticos: ajudam a eliminar o excesso de líquido nos casos em que há sobrecarga cardíaca 
    • Antiarrítmicos: usados quando o prolapso causa arritmias que precisam ser controladas 
    • Anticoagulantes: indicados nos casos em que há fibrilação atrial associada, para reduzir o risco de formação de coágulos e AVC 

    Cirurgia  

    É reservada para os casos de regurgitação mitral grave, mesmo quando não há sintomas evidentes. As opções são: 

    • Plastia mitral (reparo da válvula): preferida sempre que possível, pois preserva a válvula original do paciente. Pode ser feita por cirurgia aberta ou por técnicas minimamente invasivas 
    • Troca valvar (substituição da válvula): indicada quando o reparo não é viável. A válvula danificada é substituída por uma prótese biológica ou mecânica 

    Se deixada sem tratamento nos casos graves, a regurgitação mitral progressiva pode levar à insuficiência cardíaca. Por isso, o acompanhamento regular é sempre fundamental, mesmo quando o paciente não sente nada.

     

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