Obesidade: uma pandemia contínua
Enxergar a obesidade como doença é essencial para ampliar o acesso ao tratamento e reduzir o estigma
A cada ano, o cenário da obesidade apresenta novos desafios globais. De acordo com o Atlas Mundial da Obesidade de 2023, a projeção é que mais de 4 bilhões de pessoas (metade da população mundial) vivam com excesso de peso ou obesidade até 2035. No Brasil, os dados indicam que a condição pode atingir 41% dos adultos nesse mesmo período.
Esses números reforçam que a obesidade deve ser compreendida como uma doença crônica e multifatorial, e não como uma questão de falta de disciplina. A condição envolve fatores genéticos, metabólicos, ambientais e comportamentais.
E, para lidar com esse quadro complexo, houve avanço importante no tratamento, com abordagens mais eficazes e seguras, que permitem melhor controle de peso e de comorbidades, com impacto direto na qualidade de vida dos pacientes.
Neste artigo, você vai ler:
O que é a obesidade?
De forma bastante resumida, a obesidade é uma condição que ocorre quando o indivíduo tem acúmulo anormal ou excessivo de gordura no corpo, com repercussões negativas para a saúde. Trata-se de uma condição sistêmica, que afeta múltiplos órgãos e funções.
O diagnóstico inicial costuma utilizar o IMC (Índice de Massa Corporal), mas a avaliação clínica vai além desse parâmetro. Mais adiante, você poderá conferir detalhes sobre este cálculo.
Embora muitas pessoas associem o emagrecimento à estética, o excesso de gordura corporal está relacionado ao aumento do risco de mortalidade precoce e de doenças como diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e diversos tipos de câncer.
E é por isso que a obesidade é considerada uma doença crônica que exige acompanhamento e tratamento contínuos. A seguir, você entende melhor como o excesso de peso pode ser prejudicial para a saúde, a importância do tratamento multidisciplinar e como funciona a nova classificação da obesidade.
Classificação da obesidade
O IMC (índice de massa corporal) é um dos parâmetros universais usados para identificar se a pessoa está ou não acima do peso.
Funciona como uma ferramenta de triagem, calculada pela divisão do peso (kg) pela altura ao quadrado (m²). Está com sobrepeso quem tem valores de IMC entre 25 kg/m2 e 29,9 kg/m2. E valores acima de 30 kg/m2 já indicam obesidade.
E, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e as diretrizes da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO), a obesidade é assim classificada:
| Classificação | IMC (kg/m²) | Nível de risco |
| Sobrepeso | 25,0 a 29,9 | Aumentado |
| Obesidade Grau I | 30,0 a 34,9 | Moderado |
| Obesidade Grau II | 35,0 a 39,9 | Grave |
| Obesidade Grau III | Acima de 40,0 | Muito Grave (Mórbida) |
Com base nessa divisão, o médico pode avaliar o risco de complicações, como diabetes e hipertensão, e definir a intensidade do tratamento necessário.
O risco de complicações aumenta progressivamente com o IMC. No entanto, é importante destacar que o IMC não distingue massa magra de gordura nem avalia a distribuição de gordura corporal. Por isso, deve ser interpretado em conjunto com outros dados clínicos.
Nova classificação da obesidade
Diretrizes recentes da Abeso e da SBEM propõem uma nova maneira de classificar a obesidade, que considera não apenas o peso atual, mas a trajetória ponderal e o impacto clínico da obesidade.
Essa abordagem avalia:
- o peso máximo que a pessoa já teve (excluindo a fase da gestação de mulheres);
- perda de peso ao longo do tempo, e
- cálculo da porcentagem de perda de peso.
Perdas de 5% do peso já trazem benefícios metabólicos relevantes. Reduções entre 10% e 15% ampliam esses efeitos. Dessa forma, estabelecem-se dois conceitos novos: obesidade reduzida e obesidade controlada, mesmo sem normalização do IMC. O foco passa a ser melhora clínica sustentada, não apenas um número na balança.
Esta nova classificação da obesidade poderá se tornar uma ferramenta importante para avaliar as variáveis que envolvem a doença. Isso porque será analisada a trajetória do peso do indivíduo e não apenas seu peso atual, de acordo com o IMC.
É uma forma mais realista de lidar com pacientes com obesidade. Isso porque se baseia no peso maior que o indivíduo já teve. Mostra que as perdas de peso, mesmo quando não chegam a normalizar o índice de obesidade, já são importantes para a condição clínica da pessoa.
Vale destacar que a nova classificação reforça que o emagrecimento deve ser sustentável, ou seja, que a pessoa consiga não apenas reduzir, mas também manter o peso.
Como a obesidade afeta o organismo
A obesidade está associada a um estado inflamatório crônico de baixo grau, com possíveis alterações hormonais e metabólicas. Principais impactos relacionados:
- Sistema cardiovascular: aumento do risco de hipertensão, aterosclerose, infarto e AVC
- Sistema respiratório: redução da capacidade pulmonar e apneia do sono
- Fígado: risco de esteatose hepática e progressão para esteato-hepatite
- Metabolismo glicídico: resistência à insulina e diabetes tipo 2
- Sistema osteoarticular: sobrecarga mecânica e osteoartrite
- Sistema oncológico: associação com diversos cânceres
De acordo com o INCA, cerca de 13 em cada 100 casos de câncer no Brasil são atribuídos ao sobrepeso e à obesidade. Entre eles, estão: esôfago, estômago, pâncreas, fígado, intestino, rins, mama, ovário, tireoide e mieloma múltiplo.
Por que a obesidade deve ser vista como uma doença?
A obesidade é uma doença crônica, complexa e multifatorial. Diversas entidades médicas internacionais, como a OMS (Organização Mundial da Saúde) e CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças) classificam a condição como um problema bastante sério, que necessita de tratamento específico e de longo prazo.
Reconhecer a obesidade como doença muda a forma de abordagem, afasta o julgamento moral e direciona para tratamento adequado. A fisiopatologia envolve mecanismos que favorecem o acúmulo de energia e dificultam a perda e manutenção do peso. Isso inclui adaptações hormonais, alterações no controle do apetite e gasto energético. A manutenção da perda de peso é um dos maiores desafios clínicos, o que reforça a necessidade de acompanhamento de longo prazo.
Fatores que levam à obesidade
É comum atribuir a obesidade apenas ao excesso de alimentação e à falta de atividade física. Embora o ganho de peso esteja geralmente associado a consumir mais calorias do que o corpo gasta, a obesidade é uma condição multifatorial, que envolve também fatores biológicos, emocionais e ambientais.
Psicológicos: quem nunca comeu um chocolate depois de uma situação estressante? A comida, muitas vezes, é usada como válvula de escape das emoções. Sabe-se que pessoas ansiosas, com depressão e outros transtornos de humor estão propensas a ingerir mais calorias para aliviar sentimentos negativos.
Comportamentais: hábitos do dia a dia têm grande impacto no peso, como o tipo de alimentação, a frequência e o contexto das refeições, além do nível de atividade física e do tempo em comportamento sedentário.
Ambientais: acesso a alimentos ultraprocessados e sedentarismo.
Genéticos: alguns casos de obesidade também ocorrem por fatores hereditários e genéticos. Os filhos de pais obesos têm cerca de 80% de risco de desenvolver a condição. A mutação de alguns genes pode provocar a dificuldade de emagrecer ou tendência ao acúmulo de gordura.
Endócrinos: alguns hormônios quando estão desregulados podem causar obesidade. Doenças como hipotireoidismo podem contribuir, embora sejam causas menos frequentes
Sono e estresse: viver estressado e dormi mal são fatores que contribuem para o excesso de peso. Isso porque aumenta-se o nível de cortisol no organismo e o desejo de consumir alimentos mais calóricos.
Medicamentos: alguns fármacos podem aumentar o apetite, afetar o metabolismo ou a facilitar a formação de células de gordura. É comum que isso ocorra com corticoides, medicamentos para depressão, diabetes entre outros.
Quando o uso de medicamentos pode ser recomendado
O tratamento farmacológico é indicado como complemento às mudanças de estilo de vida, não como primeira medida isolada. De acordo com as diretrizes médicas atuais, o tratamento medicamentoso é usualmente indicado em cenários específicos:
- Critério de IMC: geralmente, é recomendado para pessoas com IMC acima de 30 kg/m² (obesidade grau I) ou para aquelas com IMC acima de 27 kg/m² (sobrepeso) que já apresentam doenças associadas, como hipertensão, diabetes tipo 2 ou colesterol elevado.
- Falha em terapias anteriores: quando o paciente, mesmo com acompanhamento nutricional e atividade física, não consegue perder pelo menos 5% do peso corporal em um período de 3 a 6 meses.
- Presença de comorbidades: quando a obesidade está agravando outras condições de saúde, tornando a redução de peso urgente para proteger órgãos como o coração e os rins.
Atualmente, há opções terapêuticas bem estabelecidas e amplamente estudadas para o tratamento da obesidade. Entre elas, destacam-se os agonistas de GLP-1 e os duplos agonistas, como semaglutida e tirzepatida, que atuam aumentando a saciedade, retardando o esvaziamento gástrico e auxiliando no controle da glicose.
O uso desses medicamentos deve ser individualizado, com prescrição e acompanhamento médico, incluindo monitorização clínica e laboratorial, para garantir segurança e integração a um plano de cuidado mais amplo.
A importância do tratamento multidisciplinar
O tratamento eficaz da obesidade envolve diferentes áreas, uma vez que o efeito sanfona (ganhar e perder peso diversas vezes) é bastante comum. Veja como cada área da saúde pode contribuir com o tratamento da obesidade:
- Endocrinologista: é o especialista responsável por avaliar as alterações hormonais, metabólicas, doenças associadas e condução terapêutica.
- Nutricionista: avalia as necessidades nutricionais de forma individual e ajuda no planejamento alimentar.
- Educador físico: elabora treinos individuais de forma segura e define metas.
- Psicólogo ou psiquiatra: ajudam no manejo do comportamento alimentar e saúde mental.
Exames indicados
O diagnóstico da obesidade e o planeamento do tratamento não dependem apenas do peso total. É preciso uma investigação detalhada para identificar como o excesso de gordura pode afetar o funcionamento do organismo. E os principais exames solicitados pelos especialistas são:
Bioimpedância elétrica
Exame essencial para ir além do IMC, pois permite medir a composição corporal. Ele detalha a percentagem de massa gorda, massa magra (músculos) e água no corpo, ajudando a identificar se a gordura está concentrada em áreas de maior risco, como a região abdominal.
Perfil metabólico (exames de sangue)
Usado para identificar “riscos invisíveis”, como glicemia de jejum e hemoglobina glicada (para dectetar pré-diabetes ou diabetes), além do perfil lipídico (colesterol total, HDL, LDL e triglicérides) para avaliar a saúde cardiovascular.
Função hepática
O médico pode solicitar exames avaliar o funcionamento do fígado e investigar a presença de gordura no fígado (esteatose hepática).
Avaliação hormonal
Quando indicada, para verificar, por exemplo, a função da tireoide e das glândulas suprarrenais.
Monitorização de rotina
Pacientes em uso de medicação exigem monitorização periódica, conforme o perfil de risco.
Quando é indicada a cirurgia bariátrica?
A cirurgia bariátrica é uma opção terapêutica eficaz para o tratamento da obesidade em casos selecionados, especialmente quando não há resposta adequada às abordagens clínicas. Em geral, está indicada para pessoas com IMC ≥ 40 kg/m² ou ≥ 35 kg/m² na presença de doenças associadas, como diabetes tipo 2, hipertensão ou apneia do sono.
O procedimento pode envolver o estômago, o intestino ou ambos, com o objetivo de promover perda de peso e melhorar o controle metabólico. Existem diferentes técnicas, e a escolha deve ser individualizada, considerando o perfil clínico do paciente, a presença de comorbidades e a avaliação de uma equipe especializada.
Além da perda de peso significativa, a cirurgia está associada à melhora ou remissão de diversas comorbidades. Trata-se de um procedimento seguro quando bem indicado e realizado por equipe experiente.
É importante ressaltar que a cirurgia não encerra o tratamento. O seguimento a longo prazo é fundamental e envolve acompanhamento clínico, nutricional e psicológico, além da manutenção de hábitos de vida saudáveis.