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    Hantavirose: sintomas, diagnóstico e tratamento

    A doença é transmitida pelo contato com excretas de roedores silvestres e a cepa brasileira não é transmitida de pessoa para pessoa

    Fonte: Dra. Luisa Frota ChebaboInfectologistaPublicado em 21/05/2026, às 17:09 - Atualizado em 21/05/2026, às 17:09

    diastase

    hantavirose é uma doença infecciosa causada pelos hantavírus, um grupo de vírus transmitidos por roedores silvestres. No Brasil, a forma mais comum é a Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH), que afeta principalmente os pulmões e pode evoluir rapidamente para um quadro grave. 

    Segundo o Ministério da Saúde, a doença é registrada em todas as regiões do país, mas os estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste concentram o maior número de casos confirmados. O grupo mais afetado é o de homens entre 20 e 39 anos, especialmente trabalhadores rurais que têm contato frequente com ambientes onde roedores silvestres vivem ou circulam. 

    Não existe transmissão de pessoa para pessoa com essa cepa de Hantavírus circulante do Brasil. O contágio acontece pelo contato com o vírus presente nas excretas dos roedores.

    Hantavirose: o que é? 

    A hantavirose é uma zoonose, ou seja, uma doença que passa de animais para humanos. É causada por vírus do gênero Hantavirus, da família Bunyaviridae, que circulam em roedores silvestres sem causar doença nesses animais. 

    No Brasil, a principal forma clínica é a Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH). Ela se caracteriza por um comprometimento grave dos pulmões, que pode evoluir para insuficiência respiratória e choque cardiogênico. A taxa de letalidade média no país, segundo o Ministério da Saúde, é de 46,5%. Por isso, o diagnóstico precoce e o atendimento hospitalar imediato são fundamentais. 

    A doença é de notificação compulsória imediata no Brasil. Isso significa que todo caso suspeito deve ser notificado em até 24 horas às autoridades de saúde municipais, estaduais e ao Ministério da Saúde. 

    Os hantavírus são um grupo de vírus de RNA com mais de 20 tipos diferentes identificados no mundo. Cada tipo está associado a uma espécie específica de roedor reservatório. A transmissão pessoa a pessoa pode ocorrer raramente com a cepa andina, que não está presente no Brasil, mas circula na Argentina e no Chile. 

    No Brasil, os principais roedores silvestres transmissores são espécies do gênero Oligoryzomys, conhecidos popularmente como camundongos do mato ou ratinhos silvestres, e do gênero Necromys. Esses animais eliminam o vírus pela saliva, urina e fezes, contaminando o ambiente ao redor. 

    É importante distinguir os roedores silvestres dos domésticos. Ratos de esgoto (Rattus norvegicus) e camundongos domésticos (Mus musculus) não são reservatórios do hantavírus no Brasil. A transmissão está associada exclusivamente aos roedores silvestres que vivem em matas, campos e áreas rurais. 

    Como ocorre a transmissão da hantavirose? 

    A transmissão acontece principalmente pela inalação de aerossóis (pequenas partículas suspensas no ar) contaminados com urina, fezes ou saliva de roedores silvestres infectados.  

    Isso pode acontecer ao varrer, limpar ou mexer em ambientes fechados e empoeirados onde esses animais vivem ou passaram, como celeiros, paióis, depósitos, cabanas e casas abandonadas. 

    O período de incubação do vírus – o tempo entre o contágio e o aparecimento dos primeiros sintomas – varia de 1 a 5 semanas, com média de 2 a 3 semanas, podendo chegar a até 60 dias. 

    Outras formas de transmissão, menos comuns, são: 

    • Contato direto com roedores infectados: ao manusear animais vivos ou mortos sem proteção adequada; 
    • Mordida de roedor infectado: rara, mas possível; 
    • Ingestão de água ou alimentos contaminados com excretas de roedores. 

    Um ponto importante: a hantavirose não se transmite de pessoa para pessoa no Brasil. Não há risco de contágio por contato com um paciente infectado, nem por gotículas respiratórias. Isso diferencia a doença de outras infecções respiratórias graves e de hantaviroses de cepas presentes em outros países. 

    É possível prevenir? 

    Sim. A prevenção da hantavirose se baseia em evitar o contato com roedores silvestres e com os ambientes que eles frequentam. Não existe vacina disponível contra o hantavírus no Brasil. 

    As principais medidas de prevenção são: 

    • Ao limpar ambientes fechados há muito tempo, como cabanas, depósitos, celeiros ou casas de campo. Umedeça o chão e as superfícies com solução de água sanitária (1 parte de água sanitária para 9 partes de água) antes de varrer. Nunca varra a seco ambientes com suspeita de presença de roedores. 
    • Use equipamento de proteção individual em situações de risco: máscara PFF3 (ou PFF2 na ausência da anterior), luvas de borracha e óculos de proteção. 
    • Evite acampar ou dormir em locais com sinais de roedores, como fezes, ninhos ou marcas de roedura. 
    • Armazene alimentos em recipientes fechados e à prova de roedores. 
    • Mantenha o entorno de casas e propriedades rurais limpo, sem entulho ou materiais que sirvam de abrigo para roedores. 
    • Feche frestas e buracos em paredes, telhados e pisos que possam servir de entrada para roedores.

    Trabalhadores rurais devem ser orientados sobre os riscos e receber equipamentos de proteção adequados. Quem apresentar febre ou sintomas respiratórios em até 60 dias após uma possível exposição deve buscar atendimento médico imediatamente e informar o histórico de exposição. 

    Sintomas da hantavirose 

    Os sintomas da hantavirose surgem, em média, 15 dias após o contágio e começam de forma parecida com uma gripe comum. Febre alta, dor de cabeça, dores musculares intensas e dor lombar são sinais dessa fase inicial. Mal-estar, náuseas e vômitos também são comuns. 

    O que diferencia a hantavirose da gripe é a rapidez com que o quadro evolui. Após dois a cinco dias dos primeiros sintomas, surge a fase cardiopulmonar, que é a mais grave: 

    • Tosse seca que se torna progressivamente produtiva; 
    • Falta de ar e dificuldade para respirar; 
    • Queda da pressão arterial; 
    • Edema pulmonar agudo (acúmulo de líquido nos pulmões). 

    Essa fase pode evoluir para insuficiência respiratória grave e choque cardiogênico em poucas horas. Por isso, qualquer pessoa com suspeita de hantavirose deve ser encaminhada imediatamente a um hospital com UTI disponível.  

    O diagnóstico precoce é a principal medida capaz de evitar complicações fatais. 

    Quando procurar por um médico? 

    Procure atendimento médico imediatamente se você tiver tido contato com ambientes rurais, matas ou locais com presença de roedores silvestres nos últimos 60 dias e desenvolver qualquer um dos seguintes sintomas: 

    • Febre alta de início súbito; 
    • Dor de cabeça intensa; 
    • Dores musculares generalizadas, especialmente na região lombar; 
    • Náuseas e vômitos; 
    • Tosse seca; 
    • Dificuldade para respirar ou sensação de falta de ar. 

    Não espere os sintomas piorarem para buscar ajuda. A hantavirose evolui rapidamente, e a janela de tempo para intervenção eficaz é curta.  

    Ao chegar ao serviço de saúde, informe sempre o histórico de possível exposição a roedores silvestres ou ambientes de risco. Com essa informação, o médico pode considerar a hantavirose entre as hipóteses diagnósticas, já que os sintomas iniciais se parecem com os de outras doenças como dengue, leptospirose e gripe. 

    Exames que auxiliam no diagnóstico da hantavirose 

    O diagnóstico da hantavirose é feito com base na combinação de critérios clínicos, epidemiológicos e laboratoriais. O histórico de exposição (ter estado em área rural ou em contato com possíveis roedores silvestres) é um dado fundamental para a suspeita diagnóstica. 

    Os principais exames laboratoriais solicitados são: 

    • Sorologia (IgM e IgG) por técnica ELISA: é o método diagnóstico padrão. A presença de anticorpos IgM indica infecção recente e ativa. A sorologia pode ser detectada na primeira semana de sintomas e é o exame confirmatório mais utilizado na prática clínica. 
    • RT-PCR (reação em cadeia da polimerase em tempo real): detecta o material genético do vírus diretamente na amostra de sangue. É especialmente útil nos primeiros dias da doença, antes que os anticorpos apareçam em quantidade detectável. 
    • Hemograma completo: alterações típicas incluem queda das plaquetas (trombocitopenia), aumento dos glóbulos brancos com presença de células imaturas (linfócitos atípicos) e elevação do hematócrito — sinais que, em conjunto com o contexto clínico, aumentam a suspeita de hantavirose. 
    • Gasometria arterial: avalia os níveis de oxigênio e dióxido de carbono no sangue, fundamental para monitorar a função respiratória.

    Uma radiografia de tórax pode mostrar infiltrados pulmonares bilaterais característicos da fase cardiopulmonar. 

    Todos os exames laboratoriais para confirmação de hantavirose devem ser realizados em laboratórios de referência, como os da Dasa. O Ministério da Saúde coordena a rede de diagnóstico para doenças de notificação compulsória no Brasil.

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    Formas de tratamento 

    Não existe tratamento específico para a hantavirose. O que é feito é o tratamento de suporte, ou seja, medidas clínicas para manter as funções vitais do paciente enquanto o organismo combate o vírus. 

    Todo paciente com suspeita de hantavirose deve ser internado imediatamente em hospital com UTI. A evolução para insuficiência respiratória pode ser muito rápida, e o suporte intensivo é o principal fator que reduz a mortalidade. 

    As medidas de suporte incluem: 

    • Oxigenioterapia e ventilação mecânica: para manter a oxigenação adequada quando os pulmões não conseguem mais funcionar sozinhos. 
    • Monitoramento contínuo: pressão arterial, frequência cardíaca, saturação de oxigênio e função renal são acompanhados de perto. 
    • Reposição volêmica cuidadosa: reposição de líquidos intravenosos para manter a pressão arterial, com atenção para não sobrecarregar os pulmões já comprometidos. 
    • Correção de distúrbios metabólicos: equilíbrio ácido-base e eletrólitos são ajustados conforme necessário. 
    • Antibioticoterapia: em casos de complicações bacterianas secundárias, como pneumonias. 
    • Medicamentos para suporte cardiovascular: vasopressores podem ser necessários nos casos de choque cardiogênico. 

    Não há antivirais com eficácia comprovada contra o hantavírus no Brasil. O uso de ribavirina, testado em alguns estudos, não demonstrou benefício consistente na forma cardiopulmonar da doença. 

    A recuperação, quando acontece, pode ser lenta. Alguns pacientes precisam de suporte ventilatório por semanas antes de conseguir respirar de forma independente. 

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