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    Resistência bacteriana é ameaça silenciosa à saúde

    Aumento de micro-organismos resistentes à antibióticos preocupa cientistas em todo o mundo

    Por Danielle SanchesPublicado em 01/07/2022, às 15:37 - Atualizado em 25/05/2023, às 14:04
    Foto: Shutterstock

    Imagine acidentalmente fazer um corte de papel no dedo. O corte, aparentemente inocente, acaba infeccionando e você precisa ir ao hospital. Chegando lá, o médico detecta a presença de uma bactéria para a qual não há antibióticos capazes de eliminá-la. Só resta esperar que a infecção não se espalhe – do contrário, um pequeno ferimento como esse pode significar uma sentença de morte.  

    O que parece um pesadelo pode se tornar realidade em algumas décadas. Há seis anos, a OMS (Organização Mundial da Saúde) lançou um alerta preocupante em um relatório sobre o tema: até 2050, a resistência microbiana (como são chamadas as doenças provocadas por bactérias resistentes aos antibióticos) poderia causar 10 milhões de mortes anuais.  

    No entanto, um estudo  publicado na revista The Lancet mostrou que, em 2019, mais de 1,2 milhão de pessoas morreram em todo o mundo por infecções causadas por bactérias resistentes – indicando que estamos muito mais próximos daquele número inicial do que era anteriormente imaginado.  

    Para se ter uma ideia, 1,2 milhão de mortes é mais do que o total de óbitos provocados por doenças como a malária e a Aids a cada ano.  

    “Estamos muito perto de retroceder um século no tratamento de infecções causadas por bactérias”, afirma o microbiologista Alessandro Silveira, coordenador do curso de especialização em Bacteriologia Clínica com Ênfase em Resistência Bacteriana da FURB (Fundação Universidade Regional de Blumenau), além de consultor de microbiologia clínica e molecular do Grupo Dasa.  

    Foto: Shutterstock

    Resistência bacteriana: quais são as causas? 

    A principal causa do aumento dos casos de resistência bacteriana é o uso excessivo e equivocado de antibióticos em infecções que não necessariamente deveriam ser combatidas com esse tipo de medicação – como as doenças virais, que não têm indicação por não responderem a esse tipo de tratamento.  

    Isso ocorre porque, ao utilizarmos um antibiótico, ele mata a maioria das bactérias. Algumas, no entanto, podem conter uma mutação – que ocorre naturalmente – e, por isso, são capazes de escapar do efeito da medicação.  

    “Isso é um fenômeno natural”, afirma Silveira. No entanto, quando usamos antibióticos de forma excessiva e indiscriminada, esse processo de seleção é acelerado.  

    O resultado então são bactérias mais resistentes aos medicamentos disponíveis se multiplicando como sempre – e povoando áreas ambientais ou organismos, caso sejam capazes de infectá-los.  

    Aqui, cabe um adendo: não estamos falando apenas de antibióticos de uso humano. O uso em animais destinados ao abate – como bois, vacas, porcos, galinhas e outros – e que são criados de forma confinada em grandes grupos também contribui para essa resistência.  

    “Esses animais vivem juntos e recebem doses de antibióticos para impedir a disseminação de doenças”, explica Alberto Chebabo, infectologista da Dasa e presidente da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia).  

    “No entanto, toda vez que esses remédios são usados, eles também acabam indo parar no meio ambiente, em solo e rios, onde acabam fazendo essa seleção de bactérias, que podem ou não causar doenças”, afirma.  

    Quais as consequências dessa resistência bacteriana? 

    O grande perigo da resistência microbiana é a dificuldade em curar doenças até então tratáveis de forma simples, como pneumonia e até ISTs (infecções sexualmente transmissíveis) como a gonorreia, causada pelo surgimento de novas cepas de bactérias.  

    “Em alguns casos, é necessário até mesmo internar o indivíduo para fazer aplicação de antibióticos em ambiente hospitalar, quando, há alguns anos, ele poderia se tratar dessas infecções em casa, sem grandes problemas”, diz.  

    Um bom exemplo do perigo que a resistência microbiana apresenta é um tipo da bactéria Klebsiella pneumoniae chamada de KPC, sigla para Klebsiella pneumoniae produtora de carbapenemase.  

    Esse tipo de bactéria, causadora de infecções respiratórias e urinária, é capaz de produzir uma enzima para combater os medicamentos mais fortes para tratar as infecções provocadas por ela, especialmente a classe dos carbapenêmicos. 

    O que pode ser feito para controlar o problema? 

    Impedir o uso indiscriminado de antibióticos para tratar infecções que não precisam desse tipo de remédio é, sem dúvida, uma importante maneira de desacelerar o processo de resistência microbiana que vivemos hoje.  

    No entanto, os especialistas reconhecem que esse problema é mais complexo e inclui outras medidas que devem ser tomadas a nível governamental – e que, por terem um impacto significativo na economia, são mais difíceis de serem implementadas.  

    Uma delas é reduzir também o uso de antibióticos na criação de animais de corte. No entanto, pela forma como eles são criados, isso teria um impacto significativo na produção de carne, com mais animais doentes e descartados antes do tempo para o abate.  

    Outra medida importante seria o incentivo à indústria farmacêutica para que a produção de novos antibióticos acompanhasse a velocidade de crescimento dessa resistência bacteriana.  

    Estima-se que, atualmente, quase todos os antibióticos lançados no mercado nas últimas décadas são variações de classes já utilizadas e descobertas na década de 1980.  

    É necessário que ações sejam tomadas o quanto antes, já que o impacto será sentido inicialmente pelos grupos mais vulneráveis, como moradores de países pobres, recém-nascidos, crianças pequenas e indivíduos imunossuprimidos.  

    “Nunca sabemos de onde vai surgir uma bactéria resistente”, diz Silveira. “Ela pode estar apenas colonizando nossa microbiota intestinal sem causar nenhum problema”, alerta. 

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