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    Machismo e cultura do estupro: como reverter a situação?

    Saiba como combater a discriminação por gênero e coibir a violência contra a mulher

    Por Samantha CerquetaniPublicado em 27/09/2022, às 15:57 - Atualizado em 30/09/2022, às 18:12
    Foto: shutterstock

    No Brasil, acontece um estupro a cada 10 minutos e um feminicídio a cada sete horas. Isso significa que cerca de três mulheres morrem por dia, apenas por serem mulheres.

    Apesar de termos evoluído na legislação com a Lei Maria da Penha, que visa a coibir a violência contra a mulher, a todo momento, ouvimos casos de assédio sexual no trabalho, discriminação por gênero, agressão física e estupros até mesmo durante partos.

    “Infelizmente, as estatísticas refletem o contexto sociocultural que vivemos, já que os papéis sociais atribuídos ao homem estão vinculados historicamente ao poder e ao domínio sobre a figura feminina. O homem se sente, num cenário patriarcal, como dono da mulher”, explica Raquel Panke, socióloga, cientista social e professora da PUCPR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná).

    Além disso, é bastante comum que ocorra uma culpabilização da vítima. Quem nunca ouviu alguém questionar a atitude da mulher ou qual roupa ela estava vestindo após um estupro?

    Infelizmente, o machismo estrutural, a misoginia e a cultura do estupro fazem parte da nossa sociedade, mas podem (e devem!) ser combatidos diariamente. A seguir, acompanhe detalhes.

    Machismo nosso de cada dia

    Se você é mulher, provavelmente já sentiu a diferença de gênero em algum momento da vida ou deixou de fazer algo apenas por medo. O machismo pode ser definido como uma forma de sexismo, ou seja, há uma clara diferenciação entre os gêneros dos indivíduos.

    Sendo assim, há a ideia de que exista distinções entre os homens e as mulheres, que os tornam superiores e dignos de mais direitos e vantagens.

    Já a misoginia, envolve a repulsa e ódio às mulheres. Portanto, esses sentimentos negativos favorecem práticas discriminatórias, como é o caso da objetificação, exclusão social e violência de todos os tipos – sexual, psicológica, moral, patrimonial  e física.

    “O machismo é chamado de estrutural porque está naturalizado em nossa sociedade e permeia todas as relações. Determina papéis e todos entendem que sempre foi assim e sempre será. O homem é colocado em oposição das mulheres. E o resultado disso é a violência de gênero”, afirma Silvana Conchão, socióloga e professora universitária.

    O machismo pode ser mais “sutil” quando é praticado como se fosse uma brincadeira. No entanto, geralmente, as mulheres sentem no dia a dia que são prejudicadas e sobrecarregadas no trabalho, com o acúmulo de tarefas domésticas ou no cuidado com filhos e pais, por exemplo.

    Entenda o que é a cultura do estupro

    Roupas, atitudes, usos de bebidas alcoólicas, más companhias…o que não faltam são argumentos que culpabilizam uma mulher que sofreu um estupro. E, muitas vezes, o medo de ser julgada impede que elas denunciem o abuso sexual.

    Isso acontece por causa da cultura do estupro, um termo que surgiu na década de 1970, após uma mobilização de feministas sobre os direitos das mulheres.

    A partir desse momento, começou a se defender a ideia de que o estupro não está relacionado ao desejo sexual e, sim, com a dominação e poder do homem sobre a mulher. E vai além disso: também destaca comportamentos sutis e explícitos que silenciam ou miniminizam a violência sexual contra a mulher.

    Vale destacar que o conceito de estupro é amplo. De forma resumida, pode ser definido como um crime sexual em que uma pessoa é forçada a ter qualquer tipo de contato sexual, com ou sem penetração, sob ameaça ou violência.

    De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, no ano passado, mais de 35 mil crianças e adolescentes foram estupradas no Brasil – e as meninas formam a maioria das vítimas: 85,5% dos casos. Portanto, nascer mulher já é um fator de risco para abusos.

    O que podemos fazer?

    Como você viu até aqui, a cultura do estupro e o machismo são atitudes que estão enraizadas na nossa sociedade.

    Ainda são muitos os desafios enfrentados pelas mulheres, dentre eles, o mercado de trabalho: apesar de ainda serem a maioria, inclusive mais escolarizadas, elas têm menos acesso às posições hierárquicas de liderança e há desigualdade salarial.

    Além de se indignar e apoiar as vítimas de violência, é importante rever pensamentos e ações do dia a dia que contribuem com a misoginia e as desigualdades de gênero.

    De acordo com Panke, quando falamos em combater o machismo, logo pensamos em ações educativas para empoderar meninas e mulheres, o que é fundamental para que possam se posicionar na sociedade e identificar atitudes machistas que são, muitas vezes, banalizadas no contexto social.

    “Porém, é importante ter ações voltadas para educar e sensibilizar o universo masculino, desde a infância. É necessário formar homens empáticos e cientes dos direitos das mulheres de modo naturalizado”, complementa.

    Veja detalhes a seguir:

    Não incentivar qualquer tipo de assédio

    Evitar compartilhar vídeos e piadas que desvalorizem a mulher já é um passo importante. Achar engraçado qualquer assédio já incentiva a cultura do estupro.

    Não culpar a vítima

    Em hipótese alguma julgue a vítima, seus comportamentos e atitudes após uma violência física ou sexual. Isso retira o abusador do foco da situação, que é o único culpado da situação.

    Eduque às crianças

    É importante desde cedo explicar para as crianças sobre consentimento, mas também sobre a questão de gênero. Evite determinar cores de roupas (azul e rosa), brinquedos “permitidos ou proibidos” para meninos e meninas. Desafie os estereótipos de gênero e os ideais violentos que as crianças encontram na mídia ou nas ruas. E apoie a educação sexual nas escolas.

    “Se a gente aprendeu que a desigualdade é natural, é possível rever conceitos e papéis sociais que determinam comportamentos e expectativas. É preciso desconstruir essas ideias. Não vejo outro caminho que não seja pela educação igualitária e não sexista para que as pessoas se desenvolvam livres”, afirma Conchão.

    Entenda que o estuprador pode ser alguém conhecido

    A falsa ideia de que o abusador é um monstro e que o estupro só acontece na rua é um erro, que facilita os abusos. Muitas vezes, a violência acontece dentro de casa.

    Apoie as mulheres

    Sempre que possível, acolha as mulheres. Dê oportunidades de trabalho com salários equiparados aos dos homens, por exemplo. Nunca minimize a dor do outro e seja sempre solidário com a vítima.

    Busque informações sempre

    Leia sobre a masculinidade tóxica e reflita sobre os papéis determinados pela sociedade de acordo com o gênero. A informação é a melhor maneira de combater a violência, o preconceito e os estereótipos.

    “Por fim, independentemente da classe social ou econômica, as violências contra as mulheres nos mais distintos lugares (casa, escola, trabalho e rua) não podem ser banalizadas e precisam ser combatidas com políticas públicas eficientes e educação igualitária para homens e mulheres”, reforça Panke.

    Diga não à violência!

    Se você foi vítima de violência física ou sexual, denuncie! Ligue 180 para falar com a Central de Atendimento à Mulher para saber sobre os seus direitos e quais são os locais de atendimento mais próximos, como a delegacia da mulher.

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