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    Miíase: o que é, quais são os tipos e como se pega  

    As larvas de moscas se depositam em feridas, orifícios ou pele sadia. Quanto mais cedo o tratamento, menores os danos

    Fonte: Dra. Sylvia Lemos HinrichsenInfectologistaPublicado em 19/06/2026, às 14:48 - Atualizado em 19/06/2026, às 14:48

    miíase

    miíase, também chamada de bicheira, é uma infestação parasitária causada por larvas de moscas que se desenvolvem e depositam seus ovos nos tecidos do corpo humano, feridas, pele íntegra ou cavidades, ouvidos, olhos, nariz e outros sítios.

    A condição é mais comum em regiões tropicais e subtropicais, como o Brasil, onde o calor e a umidade favorecem a proliferação das moscas.

    Ela afeta principalmente pessoas com feridas abertas, higiene inadequada, mobilidade reduzida ou imunidade comprometida – mas qualquer pessoa que não adote os devidos cuidados pode ser afetada. E pode ser grave, especialmente em idosos, diabéticos, ou pessoas com feridas crônicas.

    Miíase: o que é?

    Na miíase é uma infestação parasitária causada por larvas de mosca que se desenvolvem nos tecidos (vivos ou necrótico) do hospedeiro, alimentando-se deles por um período, antes de completar o ciclo e se transformar em moscas adulta, larvas eclodidas.

    Dependendo da espécie da mosca e do local do corpo afetado, a infestação pode variar de um nódulo único na pele – como no caso do berne – até infestações extensas em feridas e cavidades, com destruição progressiva do tecido.

    A miíase não é doença de notificação compulsória no Brasil. Seu controle é baseado no diagnóstico precoce, no tratamento adequado e nas medidas individuais de prevenção.  

    Tipos de miíase  

    Os dois grandes grupos são a miíase cutânea – que afeta a pele – e a miíase cavitária – que afeta orifícios e cavidades do corpo. Conheça a seguir os principais tipos.  

    Miíase cutânea furunculóide

    É o tipo mais comum no Brasil. Causada principalmente pela larva do Dermatobia hominis – conhecida popularmente como berne – e pela Cordylobia anthropophaga (mosca tumbu), que ocorre na África.

    A mosca deposita seus ovos sobre outros insetos voadores – como mosquitos – que ao pousar na pele humana transferem as larvas, que penetram o tecido e se desenvolvem sob a pele formando um nódulo com uma abertura central. Por essa abertura é possível ver o movimento da larva e há drenagem de secreção serosa. O local costuma ser doloroso e pruriginoso.

    Miíase cutânea migratória (serpiginosa)  

    As larvas não se fixam em um único ponto, mas migram sob a pele formando trajetos sinuosos e avermelhados visíveis na superfície. Causa coceira intensa e sensação de movimento sob a pele.  

    Miíase em feridas (traumática ou secundária)

    Acontece quando moscas – especialmente a varejeira Cochliomyia hominivorax, conhecida como mosca da bicheira – depositam seus ovos diretamente em feridas abertas, úlceras ou lesões cutâneas.

    As larvas eclodem em menos de 24 horas e passam a destruir o tecido vivo rapidamente. É o tipo mais grave de miíase cutânea e pode causar danos extensos se não tratado com urgência.  

    Miíase auricular

    As larvas se instalam no canal auditivo externo. Os sintomas mais característicos são sensação de zumbido ou barulho no ouvido, coceira intensa e, quando há infestação avançada, secreção com odor desagradável. A dor pode ser intensa dependendo da extensão da infestação.  

    Miíase nasal

    As moscas depositam os ovos nas fossas nasais, especialmente em pessoas com feridas, secreções ou lesões na região. As larvas causam obstrução nasal, irritação intensa, dor e, nos casos mais graves, podem avançar para estruturas adjacentes como os seios paranasais.

    Miíase ocular (oftalmomiíase)

    As larvas se instalam nos tecidos ao redor do olho ou, nos casos mais graves, dentro do globo ocular. Causa irritação intensa, edema, dor e pode comprometer a visão. É considerada uma das formas mais sérias de miíase cavitária.

    Miíase intestinal

    Acontece pela ingestão acidental de ovos ou larvas de moscas em alimentos contaminados. As larvas sobrevivem no trato gastrointestinal por algum tempo, podendo causar sintomas leves como dor abdominal e diarreia.   

    É o tipo menos grave e tende a se resolver espontaneamente quando a exposição cessa.  

    O que causa a miíase em humanos?  

    A causa direta da miíase é a deposição de ovos ou larvas de moscas em tecidos humanos. As principais espécies envolvidas no Brasil são o Dermatobia hominis (berne) e a Cochliomyia hominivorax (mosca da bicheira).

    A forma como as larvas chegam ao hospedeiro varia conforme a espécie:

    • Algumas moscas depositam seus ovos diretamente sobre a pele ou em feridas abertas, onde as larvas eclodem e penetram o tecido;  
    • Outras espécies – como o Dermatobia hominis – adotam uma estratégia indireta: capturam mosquitos e outros insetos voadores e depositam seus ovos sobre eles. Quando esse inseto pousa em uma pessoa, o calor do corpo estimula a eclosão das larvas, que penetram a pele;  
    • Algumas espécies depositam larvas já eclodidas diretamente sobre o hospedeiro.

    Os principais fatores de risco que aumentam a chance de infestação são:

    • Feridas abertas ou úlceras não protegidas;  
    • Higiene pessoal inadequada;  
    • Mobilidade reduzida – pessoas acamadas ou com dificuldade de se cuidar têm maior vulnerabilidade;  
    • Doença neurológicas ou psiquiátricas;  
    • Diabetes mellitus;  
    • Imunidade comprometida – por doenças crônicas, uso de imunossupressores ou desnutrição;  
    • Proximidade com animais domésticos ou de criação em áreas rurais;  
    • Dormir ao ar livre em áreas endêmicas;  
    • Exposição a alimentos mal acondicionados ou contaminados por moscas – para a forma intestinal.  

    Riscos associados

    Na maioria dos casos, a miíase cutânea furunculóide – como o berne – é uma infestação localizada e não representa risco grave para pessoas saudáveis. Mas em situações específicas, a condição pode evoluir para complicações sérias.

    Os principais riscos são:

    • Infecção bacteriana secundária: as feridas causadas pelas larvas são portas de entrada para bactérias. Nos casos de miíase em feridas, especialmente por Cochliomyia hominivorax, a destruição tecidual pode ser rápida e intensa, favorecendo infecções graves;  
    • Destruição de tecidos profundos: se não tratada, a miíase em feridas pode avançar para músculo e até osso, causando danos extensos e irreversíveis;  
    • Complicações em locais sensíveis: a miíase ocular pode levar à perda de visão. A miíase nasal e auricular pode avançar para estruturas vizinhas, causando complicações neurológicas em casos extremos;  
    • Maior gravidade em populações vulneráveis: idosos, bebês, pessoas com mobilidade reduzida, usuários de álcool e pacientes com doenças crônicas têm maior risco de infestações extensas e complicações;  
    • Leucocitose e febre: nos casos mais graves de miíase cavitária, pode haver resposta inflamatória sistêmica com febre, calafrios e alteração nos exames de sangue.  

     Prevenção

    A prevenção da miíase passa por medidas simples de higiene e proteção individual, especialmente para quem vive ou trabalha em áreas rurais ou tem fatores de risco:

    • Tratar e cobrir feridas abertas imediatamente: feridas expostas são o principal ponto de entrada para as moscas. O curativo adequado e a troca regular do curativo reduzem muito o risco;  
    • Manter a higiene pessoal diária: banho regular e cuidado com a pele ajudam a evitar a infestação;  
    • Usar repelentes: embora tenham eficácia limitada contra moscas em comparação com mosquitos, ainda oferecem alguma proteção;  
    • Usar roupas que cubram o corpo em áreas de risco, especialmente em regiões rurais com presença de animais;  
    • Uso de telas, mosquiteiros e proteção das feridas; 
    • Combater a proliferação de moscas no ambiente: manter lixo fechado, higienizar ambientes e evitar acúmulo de matéria orgânica reduz a população de moscas no entorno;  
    • Proteger alimentos: cobrir alimentos e lavar frutas e verduras antes do consumo previne a forma intestinal;  
    • Cuidar adequadamente de animais domésticos: higienizar e tratar feridas em pets e animais de criação evita que se tornem foco de moscas que podem depois infestar humanos.

    Quando procurar por um médico?

    Procure atendimento médico se você ou alguém próximo apresentar:

    • Nódulo ou ferida na pele com sensação de movimento, coceira intensa ou pequena abertura com secreção – sinais clássicos do berne ou miíase furunculóide;  
    • Ferida com presença visível de larvas ou que piore rapidamente sem melhora com curativo comum;  
    • Sensação de zumbido, barulho, movimento dentro do ouvido e/ou presença visível de larvas – especialmente após exposição ao campo ou áreas rurais;  
    • Irritação intensa nos olhos com edema, dor ou sensação de corpo estranho após atividades ao ar livre;  
    • Sintomas gastrointestinais – dor abdominal, diarreia ou visualização de larvas nas fezes.

    Não é recomendável remover as larvas por conta própria sem orientação médica, principalmente nas formas cavitárias. A remoção inadequada pode causar ruptura das larvas no tecido, aumentar o risco de infecção bacteriana e dificultar o tratamento.

    Exames que auxiliam no diagnóstico

    O diagnóstico da miíase é feito basicamente pela identificação visual das larvas no tecido afetado. É importante saber se houve exposição a áreas rurais, contato com animais ou presença de feridas abertas nos dias anteriores.

    A identificação da espécie da larva – quando possível – orienta o prognóstico e o tratamento. Ela é feita por análise morfológica das estruturas da larva, como espiráculos, peças bucais e espinhos cuticulares.

    Em casos com sinais de infecção secundária ou resposta inflamatória sistêmica, pode-se solicitar:

    • Exame de sangue completo: o hemograma pode mostrar leucocitose (aumento dos glóbulos brancos), indicando infecção bacteriana associada, e eosinofilia em alguns casos de infestação parasitária;  
    • Culturas de secreção: quando há suspeita de infecção bacteriana secundária na ferida, para identificar o agente e orientar o uso de antibióticos;  
    • Exames de imagem: tomografia ou ressonância magnética podem ser solicitadas nas miíases cavitárias graves, especialmente quando há suspeita de extensão para estruturas profundas.

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    Formas de tratamento para a miíase em humanos

    O tratamento da miíase é baseado na remoção das larvas e deve ser feito por um profissional de saúde. A abordagem varia conforme o tipo e a localização da infestação.  

    Miíase furunculóide (berne)

    A remoção é feita manualmente, com pinça esterilizada, após anestesia local. Uma técnica comum é ocluir a abertura do nódulo com vaselina ou outro material que bloqueie a respiração da larva, forçando-a a se aproximar da superfície para facilitar a retirada. Após a remoção, a ferida é limpa e pode ser tratada com antisséptico tópico.

    Miíase em feridas (traumática)

    A remoção manual das larvas deve ser feita com urgência – quanto antes, menor a destruição tecidual. O procedimento é realizado com anestesia local e pode exigir limpeza cirúrgica extensa da ferida. Em casos de infestação grave, a cirurgia pode ser necessária para desbridar os tecidos afetados.

    Após a remoção, antibióticos tópicos e, quando há infecção bacteriana secundária confirmada, antibióticos sistêmicos são indicados.  

    Uso de ivermectina

    A ivermectina oral pode ser utilizada em alguns casos – especialmente nas miíases secundárias extensas ou que apresentem dificuldade em remoção mecânica – na dose de 200 mcg/kg em dose única.

    O medicamento causa a paralisia e morte das larvas, que devem então ser removidas manualmente.

    Mas vale esclarecer que não há estudos controlados que estabeleçam a eficácia da ivermectina para todos os tipos de miíase, e seu uso deve ser avaliado pelo profissional de saúde, caso a caso.

    Não é recomendado o uso de álcool, azeite, creolina ou outras substâncias diretamente sobre as larvas – essas substâncias podem irritá-las, fazendo com que penetrem mais fundo no tecido.  

    Miíase cavitária (auricular, nasal, ocular)

    A remoção das larvas em orifícios e cavidades exige avaliação e intervenção por especialista – otorrinolaringologista para os casos auriculares e nasais, e oftalmologista para os casos oculares.

    O procedimento pode envolver irrigação do canal, uso de pinças específicas e, nos casos de miíase ocular interna, fotocoagulação a laser ou vitrectomia.  

    Miíase intestinal  

    Na maioria dos casos, a simples interrupção da exposição ao alimento contaminado resolve o quadro espontaneamente. Não é necessário tratamento medicamentoso específico na maioria dos casos leves.

     

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