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    Caneta emagrecedora não é para todo mundo; entenda quem pode usar

    Medicamentos injetáveis à base de semaglutida e tirzepatida têm critérios claros de indicação e contraindicação

    Fonte: Dra. Deyse MeiraendocrinologistaPublicado em 19/06/2026, às 14:32 - Atualizado em 19/06/2026, às 14:32

    caneta emagrecedora

    Caneta emagrecedora. O nome batizou uma classe de medicamentos injetáveis que imitam hormônios naturais do intestino para reduzir o apetite, aumentar a saciedade e controlar a glicemia. 

    Com a popularidade, veio o uso sem indicação médica, a automedicação e um mercado cheio de produtos irregulares. Em 2025, a Anvisa passou a exigir receita com retenção para a compra desses medicamentos. E isso por causa do alto número de eventos adversos registrados fora das indicações aprovadas. 

    Siga a leitura e saiba para quem servem e quais os riscos das canetas.

     

    Caneta emagrecedora: o que é? 

    Canetas emagrecedoras são medicamentos injetáveis que pertencem à classe dos agonistas do receptor GLP-1, substâncias que imitam o hormônio GLP-1, produzido naturalmente pelo intestino após as refeições.  

    Esse hormônio avisa o pâncreas para liberar insulina, reduz a produção de glucagon (hormônio que eleva a glicose), retarda o esvaziamento do estômago e age em áreas do cérebro que controlam o apetite. 

    Como resultado, você sente menos fome, fica satisfeito com menos comida e o açúcar no sangue fica mais controlado. 

    Existem três medicações nessa classe aprovados para tratamento da obesidade no Brasil: 

    • Semaglutida: presente no Ozempic (indicado para diabetes tipo 2) e no Wegovy (indicado para obesidade). Age exclusivamente nos receptores de GLP-1. Segundo o estudo STEP 1, publicado no The New England Journal of Medicine, a semaglutida na dose de 2,4 mg promoveu redução média de cerca de 15% do peso corporal em 68 semanas. 
    • Tirzepatida: presente no Mounjaro. Age em dois receptores — GLP-1 e GIP — o que a torna um agonista duplo. A princípio, essa ação combinada resulta em maior perda de peso, promovendo perda média de 15% em 52 semanas. 
    • Liraglutida: presente no Saxenda (obesidade) e no Victoza (diabetes). É a molécula mais antiga da classe, com eficácia menor que as anteriores — média de 8% de redução de peso em um ano 

    Todas são aplicadas por injeção subcutânea (a agulha atravessa a pele), geralmente uma vez por semana, nas regiões do abdômen, coxa ou braço. A liraglutida é a exceção: sua aplicação deve ser diária. 

    No Brasil, esses medicamentos são de tarja vermelha. Desde abril de 2025, a Anvisa exige que a receita seja emitida em duas vias e retida na farmácia no momento da compra — como acontece com antibióticos.  

    Quando a caneta emagrecedora é indicada? 

    Os análogos do GLP-1 têm indicações bem definidas. Não devem ser um atalho para quem quer perder alguns quilos por questões estéticas. 

    O tratamento é indicado em dois contextos clínicos: 

    Diabetes tipo 2

    Neste caso, o tratamento é indicado quando a glicemia não está adequadamente controlada com o tratamento já estabelecido ou até mesmo como primeira opção, caso o paciente apresente excesso de adiposidade e alto risco cardiovascular.  

    A escolha e o momento de iniciar o tratamento são sempre decisões médicas individualizadas. 

    Obesidade ou sobrepeso com comorbidades 

    Os critérios seguem as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), que recomenda o uso em adultos com: 

    • IMC igual ou superior a 30 kg/m² (obesidade), independentemente de outras condições 
    • IMC igual ou superior a 27 kg/m² (sobrepeso) com pelo menos uma comorbidade associada ao peso, como hipertensão arterial, diabetes tipo 2, dislipidemia ou apneia obstrutiva do sono 

    Em qualquer dos casos, o uso das canetas deve sempre ser associado a mudanças no estilo de vida, como uma alimentação mais nutritiva e diversificada e atividade física regular. A medicação não substitui esses hábitos.  

    A atividade física e os ajustes da dieta protegem contra a perda de massa magra. O exercício físico também muito importante na manutenção do peso após atingido o peso meta.  

    Somente um médico — em geral o endocrinologista — pode avaliar se o uso é adequado para cada paciente, definir a dose correta e acompanhar a evolução do tratamento. 

    Contraindicações 

    A caneta emagrecedora não pode ser usada por qualquer pessoa. Há situações em que o risco supera os benefícios e o uso é contraindicado. E as principais contraindicações são: 

    • Histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide (CMT): estudos em roedores identificaram risco de tumores nas células C da tireoide com o uso de agonistas de GLP-1. Embora não haja evidência conclusiva em humanos, a precaução é mantida 
    • Síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (MEN 2): condição genética associada ao CMT, que contraindica o uso 
    • Histórico de pancreatite: a Anvisa emitiu alerta específico sobre o risco de pancreatite aguda — inclusive formas necrotizantes e fatais — associado ao uso indevido dessas canetas. Quem já teve pancreatite deve informar o médico antes de iniciar o tratamento 
    • Gravidez e amamentação: o uso não é recomendado durante a gestação nem no período de aleitamento 
    • Alergia conhecida ao princípio ativo ou a qualquer componente da fórmula 
    • Doença renal grave: deve ser avaliada individualmente pelo médico 

    Além das contraindicações formais, o uso sem indicação médica — especialmente por pessoas com IMC normal, sem diabetes e sem comorbidades — é considerado inadequado e perigoso tanto pela Anvisa quanto pelo Conselho Federal de Medicina.  

    O risco de efeitos colaterais intensos aumenta muito quando a dose não é ajustada ao perfil do paciente. 

    Possíveis efeitos colaterais das canetas emagrecedoras 

    Os efeitos colaterais mais comuns das canetas emagrecedoras são gastrointestinais. Eles tendem a aparecer no início do tratamento, especialmente nas primeiras semanas de ajuste de dose, e costumam diminuir com o tempo. 

    Os mais frequentes são náuseas, vômitos, diarreia e constipação. Outros sintomas comuns seriam refluxo, sensação de estufamento, dor abdominal, fadiga e tontura.  

    Estudos clínicos mostram que até 20% dos pacientes relatam náuseas no início do tratamento, e entre 10% e 15% têm alterações intestinais como constipação ou diarreia. 

    Outros efeitos que podem acontecer: 

    • Queda de cabelo leve e temporária (mais relatada com tirzepatida); 
    • Alterações no apetite; 
    • Dor de cabeça; 
    • Reações no local da aplicação (vermelhidão, inchaço, coceira). 

    Entre os efeitos graves e raros estão: 

    • Pancreatite aguda: a Anvisa registrou, entre 2020 e dezembro de 2025, 145 notificações de suspeitas de eventos adversos no Brasil, incluindo seis suspeitas de óbito. No Reino Unido, a autoridade regulatória MHRA registrou 1.296 notificações de pancreatite entre 2007 e outubro de 2025, incluindo 19 mortes. Os sintomas de alerta são dor abdominal intensa e persistente, que pode irradiar para as costas, acompanhada de náuseas e vômitos. E exigem atendimento médico imediato. 
    • Eventos biliares: como colelitíase (cálculos na vesícula), especialmente em perdas de peso rápidas. 
    • Hipoglicemia: risco aumentado quando combinado de forma inadequada com outros medicamentos para diabetes. 

    Segundo a Anvisa, os benefícios terapêuticos ainda superam os riscos quando o medicamento é usado dentro das indicações aprovadas e com acompanhamento médico adequado. 

    Exames indicados para quem usa canetas emagrecedoras 

    Antes de iniciar o tratamento com canetas emagrecedoras, o médico avalia o histórico de saúde do paciente, doenças preexistentes, medicamentos em uso e histórico familiar, especialmente de câncer medular de tireoide ou síndrome MEN 2. 

    Os exames solicitados antes do início do tratamento costumam ser: 

    • Glicemia de jejum e hemoglobina glicada (HbA1c): avaliam o controle da glicose e o status glicêmico inicial; 
    • Perfil lipídico: colesterol total, frações e triglicerídeos; 
    • Função renal: creatinina, ureia e taxa de filtração glomerular; 
    • Função hepática: enzimas TGO/AST e TGP/ALT; 
    • Exames da tireoide (ultrassonografia ou calcitonina): solicitados quando há histórico ou preocupação específica; 
    • Amilase e lipase: enzimas pancreáticas, pedidas quando há histórico ou suspeita de pancreatite. 

    Durante o tratamento, o acompanhamento costuma exigir os seguintes exames: 

    • Monitoramento regular do peso e da composição corporal; 
    • Hemoglobina glicada periódica (para pacientes com diabetes); 
    • Repetição dos exames de função renal e hepática conforme avaliação médica; 
    • Monitoramento da pressão arterial e do perfil lipídico; 
    • Avaliação contínua de possíveis efeitos colaterais. 

    Um check-up completo antes de iniciar o tratamento é sempre recomendado. A frequência dos exames de acompanhamento é definida pelo médico de acordo com o perfil de cada paciente.

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    Outras opções para perder peso 

    A caneta emagrecedora é uma ferramenta terapêutica importante. É um medicamento de alta potência para obesidade, mas está longe de ser a única opção para quem quer emagrecer com saúde. Para boa parte das pessoas, as mudanças no estilo de vida continuam sendo a base de qualquer tratamento para perda de peso. 

    As principais abordagens são: 

    • Reeducação alimentar com acompanhamento de nutricionista ou nutrólogo: dietas restritivas sem orientação tendem a não funcionar a longo prazo. Uma alimentação equilibrada, adequada às preferências e necessidades individuais, é mais eficaz e sustentável. 
    • Atividade física regular: a recomendação geral é de pelo menos 150 minutos de atividade moderada por semana. Os exercícios aumentam o gasto calórico, regulam hormônios do apetite e contribuem para o bem-estar mental. 
    • Acompanhamento psicológico: fundamental em casos de compulsão alimentar ou de uma relação pouco saudável com a comida. 
    • Outros medicamentos para emagrecer: existem outras opções além das canetas, como o orlistate (que reduz a absorção de gordura) e a combinação de naltrexona com bupropiona, indicados em situações específicas e sempre com prescrição médica. 
    • Cirurgia bariátrica: indicada para casos de obesidade grave (IMC acima de 40, ou acima de 35 com comorbidades), quando outras abordagens não foram eficazes. É considerada o tratamento mais eficaz para obesidade grave em longo prazo. 

    O ponto comum entre todas essas abordagens: nenhuma funciona de forma isolada e duradoura sem mudança de hábitos. A escolha da estratégia certa depende do perfil, do histórico e dos objetivos de cada pessoa, devendo ser feita sempre com orientação médica.

     

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