APLV: a alergia à proteína do leite de vaca mais comum em bebês
A condição afeta cerca de 2% das crianças até 2 anos no Brasil e tem boa chance de remissão espontânea até os 5 anos

A APLV – alergia à proteína do leite de vaca – é a alergia alimentar mais frequente na infância. Ela acontece quando o sistema imunológico do bebê ou da criança identifica as proteínas do leite de vaca como substâncias estranhas e perigosas, desencadeando uma reação alérgica.
Os sintomas podem afetar a pele, o sistema digestivo e o sistema respiratório ao mesmo tempo, dificultando o dia a dia do bebê e dos pais. Mas, na maioria dos casos, a APLV tem boa evolução: cerca de 50% dos bebês diagnosticados superam o problema após um ano, e 75% dos diagnósticos regridem de forma espontânea até os 3 anos.
Neste artigo, você vai ler:
APLV: o que é?
A APLV é uma reação adversa do sistema imunológico às proteínas do leite de vaca. Diferente da intolerância à lactose – que é um problema digestivo, causado pela falta da enzima lactase para digerir o açúcar do leite, sem envolvimento imunológico -, a APLV envolve uma resposta imune específica contra as proteínas do leite.
As principais proteínas envolvidas nas reações alérgicas são a caseína, a alfa-lactoalbumina e a beta-lactoglobulina. Quando o sistema imunológico da criança entra em contato com essas proteínas, passa a reconhecê-las como ameaças e produz anticorpos ou ativa outros mecanismos imunológicos para combatê-las – o que provoca os sintomas da alergia.
As reações podem ser de três tipos:
- Imediatas: mediadas por anticorpos IgE, surgem minutos a 2 horas após a ingestão do leite;
- Tardias: mediadas por células do sistema imunológico, surgem várias horas ou dias após a exposição;
- Mistas: com componentes dos dois mecanismos.
A APLV é mais comum nos primeiros anos de vida, porque o sistema imunológico e o trato gastrointestinal do bebê ainda estão em maturação. Com o amadurecimento do organismo, a maioria das crianças desenvolve tolerância às proteínas do leite ao longo do tempo.
O que pode causar a APLV?
A causa direta da APLV é a exposição às proteínas do leite de vaca – pela ingestão de leite, fórmulas infantis à base de leite de vaca ou alimentos que contêm esses ingredientes. Mas nem toda criança exposta desenvolve a alergia.
Alguns fatores que aumentam o risco, sendo o histórico familiar de alergia o principal. Quando um ou ambos os pais têm doenças alérgicas – como asma, rinite, urticária ou outras alergias alimentares -, a probabilidade de a criança desenvolver APLV é maior.
Isso porque a predisposição genética à atopia – tendência do organismo a reagir de forma exagerada a substâncias normalmente inofensivas – é herdada.
Outros pontos relevantes:
- Bebês alimentados com fórmulas à base de leite de vaca desde o nascimento têm maior exposição às proteínas e, portanto, maior risco de sensibilização;
- Bebês em aleitamento materno exclusivo também podem desenvolver APLV, pois as proteínas do leite de vaca ingeridas pela mãe passam pelo leite materno e chegam ao bebê;
- A imaturidade do sistema imunológico e da barreira intestinal nos primeiros meses de vida facilita a sensibilização às proteínas alimentares.
Não há comprovação de que a dieta de restrição alimentar da mãe durante a gestação ou a amamentação possa prevenir o surgimento da APLV.
Sintomas da APLV
Os sintomas da APLV são variados e podem afetar vários sistemas do organismo ao mesmo tempo. Em bebês e crianças pequenas, os mais comuns são cólicas intensas, choro excessivo e irritabilidade, que muitas vezes são os primeiros sinais percebidos pelos pais.
Os sintomas se dividem conforme o sistema afetado:
Sintomas digestivos
- Nas formas não mediadas por IgE , são os mais frequentes Cólicas intensas e choro persistente;
- Vômitos frequentes;
- Diarreia ou fezes amolecidas;
- Sangue nas fezes, um dos sinais mais característicos da APLV em bebês, especialmente na forma de proctocolite alérgica;
- Constipação intestinal;
- Recusa alimentar.
Sintomas de pele
- Dermatite atópica: pele seca, vermelha e com coceira intensa, especialmente nas bochechas, cotovelos e joelhos; nessa situação como sintoma isolado de APLV é pouco comum, geralmente está mais presente nas apresentações mistas e/ou na multisensibilizações.
- Urticária: manchas avermelhadas e elevadas, com coceira;
- Inchaço nos lábios, na língua ou ao redor dos olhos.
Sintomas respiratórios
- Rinite: coriza, espirros e obstrução nasal recorrentes;
- Tosse crônica;
- Chiado no peito.
Reação grave: anafilaxia
Nos casos de APLV mediada por IgE – quadro que tem aumentado nos últimos anos –, pode acontecer uma reação alérgica grave e generalizada, a anafilaxia.
Os sintomas surgem rapidamente após a ingestão do leite e podem incluir urticária generalizada, vômitos, dificuldade para respirar, queda de pressão e perda de consciência. É uma emergência médica que exige atendimento imediato.
Quando procurar por um médico?
Procure avaliação médica se o bebê ou a criança apresentar qualquer combinação dos sintomas descritos acima, especialmente quando surgem de forma repetida após a ingestão de leite ou fórmula à base de leite de vaca.
Leve ao pronto-socorro imediatamente se houver sinais de reação grave: dificuldade para respirar, inchaço no rosto ou na garganta, palidez intensa, queda súbita de pressão ou perda de consciência após a ingestão de leite.
Em situações menos urgentes, o pediatra é o primeiro profissional a ser consultado. Dependendo da gravidade e da complexidade do caso, ele pode encaminhar para o alergologista ou gastroenterologista pediátrico.
O diagnóstico correto evita tanto a restrição desnecessária quanto a exposição inadequada ao alérgeno.
Diagnóstico da APLV
O diagnóstico da APVL é bastante desafiador. Inicialmente, o médico investiga os sintomas, quando começaram, com que frequência aparecem, se há relação com a ingestão de leite e se há histórico familiar de atopia.
Em geral nas reações não IgE mediadas, como não existe um exame laboratorial é indicada uma dieta de exclusão baseada na história clínica, com a retirada do leite de vaca e seus derivados da dieta da criança – ou da mãe, no caso de bebês em aleitamento materno – por um período de 2 a 4 semanas. Se os sintomas melhorarem significativamente, a suspeita de APLV é reforçada.
Na sequência, é feito o chamado teste de provocação oral (TPO). Ou seja, pós a melhora com a dieta de exclusão, o leite é reintroduzido de forma controlada para observar se os sintomas retornam. É considerado o método mais confiável para confirmar o diagnóstico.
O TPO com suspeita de reação IgE mediada deve ser feito sob supervisão médica em ambiente preparado para tratar reações, e nunca em casa.
IgE específica para leite de vaca
Quando há suspeita de APLV mediada por IgE – ou seja, com reações rápidas após a ingestão de leite -, o médico pode solicitar a dosagem de IgE específica para as proteínas do leite de vaca.
O exame é feito por coleta de sangue e detecta a presença de anticorpos IgE dirigidos contra as proteínas do leite – especialmente a caseína, a alfa-lactoalbumina e a beta-lactoglobulina. Não exige jejum e pode ser realizado em qualquer faixa etária.
O resultado positivo indica sensibilização às proteínas do leite, mas não confirma sozinho o diagnóstico de APLV – é sempre interpretado pelo médico em conjunto com o quadro clínico e os demais exames. O teste cutâneo (prick test) é outro recurso que pode ser usado de forma complementar para avaliar a sensibilidade da pele às proteínas do leite.
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Formas de tratamento
O tratamento da APLV é baseado na exclusão completa do leite de vaca e de todos os seus derivados da dieta da criança – e, quando o bebê está em aleitamento materno, também da dieta da mãe em casos selecionados. É a única abordagem com eficácia comprovada.
Dieta de exclusão
Toda fonte de proteína do leite de vaca deve ser eliminada: leite, queijo, iogurte, manteiga, creme de leite, leite em pó e qualquer alimento industrializado que contenha esses ingredientes. A leitura atenta dos rótulos é fundamental, pois as proteínas do leite podem aparecer com nomes variados nos ingredientes.
Atualmente, sabe-se que alguns pacientes conseguem tolerar formas processadas do leite – como o leite aquecido em altas temperaturas ou presente em produtos assados. Por isso, a restrição deve ser individualizada e sempre orientada pelo médico, com acompanhamento de nutricionista nos casos mais complexos, nunca restrições devem ser guiadas apenas por exames laboratoriais
Substituição do leite nos bebês
Para bebês que não estão em aleitamento materno exclusivo ou que precisam de fórmula complementar, as opções indicadas são:
- Fórmulas com proteína extensamente hidrolisada (pEHF): as proteínas do leite são fragmentadas em pedaços muito pequenos, reduzindo a alergenicidade. São a primeira escolha para a maioria dos casos;
- Fórmulas de aminoácidos (AAF): indicadas quando a criança não tolera as fórmulas hidrolisadas ou tem reações graves. As proteínas são substituídas por aminoácidos livres, sem potencial alergênico, caso os sintomas não melhorem com essa fórmula outros diagnósticos devem ser afastados
- Fórmulas à base de soja: podem ser usadas em alguns casos, mas com cautela – cerca de 10% a 15% das crianças com APLV também desenvolvem alergia à soja.
Outros tratamentos
Existem opções para os casos mais persistentes e graves:
- Dessensibilização e imunoterapia específica: protocolos de introdução gradual e controlada do alérgeno para induzir tolerância. São reservados para casos selecionados, conduzidos por especialistas em alergologia;
- Adrenalina autoinjetável: prescrita para crianças com histórico de reações alérgicas Ige mediadas, para uso em emergências. Os pais e cuidadores devem ser treinados para reconhecer os sinais de reação grave e usar o dispositivo corretamente.
A intolerância alimentar e a intolerância à lactose são condições distintas da APLV e têm manejo diferente. Por isso, o diagnóstico correto – feito pelo médico – é o ponto de partida para qualquer tratamento.