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    Pseudomonas aeruginosa: o que é, como se pega e quando é grave

    Presente no solo, na água e em ambientes úmidos, a bactéria é resistente a antibióticos

    Fonte: Dra. Luisa Frota ChebaboInfectologistaPublicado em 28/07/2026, às 13:50 - Atualizado em 28/07/2026, às 13:50

    Pseudomonas aeruginosa

    A Pseudomonas aeruginosa é uma bactéria encontrada em praticamente todo lugar: no solo, na água, em pias, banheiros, piscinas maltratadas e superfícies úmidas. Em pessoas saudáveis, ela raramente causa problemas. O sistema imunológico dá conta.

    O problema acontece quando a bactéria encontra um hospedeiro vulnerável – alguém internado em UTI, com imunidade comprometida, com diabetes ou fibrose cística. Nesses casos, ela pode causar infecções graves, de difícil tratamento, porque desenvolveu mecanismos sofisticados para resistir a vários antibióticos.

    A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica a Pseudomonas aeruginosa como um dos patógenos de prioridade crítica no mundo – um dos três que mais preocupam pela combinação de virulência e resistência.

    Pseudomonas aeruginosa: o que é?

    A Pseudomonas aeruginosa é uma bactéria capaz de sobreviver em ambientes com pouquíssimos nutrientes e de se adaptar rapidamente a condições adversas. Essa versatilidade é o que a torna tão difícil de eliminar – tanto do ambiente quanto do organismo humano.

    Ela é considerada uma bactéria oportunista: em pessoas saudáveis, pode estar presente na pele, na garganta e no trato gastrointestinal sem causar nenhuma doença. É quando as defesas do organismo falham – por doença, por internação prolongada ou por uso de imunossupressores – que ela se torna perigosa.

    A Pseudomonas aeruginosa é uma bactéria gram-negativa, ou seja, que não retêm o corante violeta de genciana durante a técnica de coloração de Gram, assumindo uma coloração vermelha ou rosa.

    Uma de suas características mais preocupantes é sua resistência natural e adquirida a antibióticos. Isso porque a sua membrana externa é muito pouco permeável – até 100 vezes menos do que outras bactérias gram-negativas – o que dificulta a entrada dos medicamentos.

    Além disso, ela possui bombas de efluxo que expulsam os antibióticos de dentro da célula, e é capaz de produzir enzimas que destroem esses medicamentos. Com o tempo e a exposição repetida, ela pode acumular mutações que a tornam resistente a várias classes de antibióticos ao mesmo tempo – o que os médicos chamam de multirresistência.

    Como ocorre a transmissão da Pseudomonas aeruginosa?

    A Pseudomonas aeruginosa não se transmite pelo ar como um vírus respiratório. A contaminação acontece pelo contato direto com fontes ambientais ou com superfícies e equipamentos contaminados.

    As principais formas de transmissão são:

    • Contato com água contaminada – piscinas mal tratadas, banheiras de hidromassagem, água estagnada e, em casos notificados no Brasil, até água mineral contaminada na fabricação;
    • Uso de dispositivos médicos – cateteres urinários, tubos de respiração, ventiladores mecânicos e equipamentos mal esterilizados em ambiente hospitalar;
    • Contato com feridas abertas ou queimaduras em ambientes contaminados;
    • Mãos de profissionais de saúde que não higienizam adequadamente entre um paciente e outro – uma das principais vias de disseminação em UTIs;
    • Contato com produtos de higiene, cosméticos ou soluções oftalmológicas contaminados.

    Em ambientes hospitalares, a bactéria pode colonizar pias, ralos, superfícies úmidas e equipamentos – e sobreviver por longos períodos nessas superfícies, mesmo após limpeza convencional. Por isso, o controle de infecção hospitalar é fundamental para evitar surtos.

    A Pseudomonas aeruginosa não é transmitida de pessoa para pessoa pelo ar. Mas pode se espalhar de um paciente para outro pelas mãos de quem cuida deles, especialmente em ambientes de cuidado intensivo.

    Sintomas

    Os sintomas da infecção por Pseudomonas aeruginosa variam conforme o local do corpo afetado. A bactéria pode infectar praticamente qualquer tecido ou órgão – e o quadro vai de uma irritação leve na pele até infecções sistêmicas com risco de vida.

    Os quadros mais comuns e seus sintomas principais são:

    Infecção de ouvido

    A chamada “otite do nadador” é uma das infecções mais frequentes por Pseudomonas aeruginosa em pessoas saudáveis. Acontece após exposição prolongada à água contaminada – especialmente em piscinas e banheiras de hidromassagem. Os sintomas são dor intensa no ouvido, coceira, vermelhidão, secreção e sensação de ouvido entupido.

    Infecção de pele

    Pode se manifestar como foliculite – inflamação dos folículos pilosos, com pequenas pústulas avermelhadas, geralmente associada ao uso de banheiras de hidromassagem. Em pessoas com queimaduras graves ou feridas abertas, a infecção pode ser muito mais séria, com necrose tecidual e risco de disseminação para a corrente sanguínea.

    Infecção respiratória

    É a apresentação mais grave e está diretamente associada ao ambiente hospitalar. A pneumonia por Pseudomonas aeruginosa é uma das principais infecções em pacientes em ventilação mecânica nas UTIs.

    Os sintomas são febre, tosse produtiva com secreção purulenta, falta de ar e piora progressiva da função pulmonar. Em pacientes com fibrose cística, a bactéria pode colonizar cronicamente os pulmões, causando infecções repetidas ao longo da vida.

    Infecção urinária

    Acontece principalmente em pessoas com cateter urinário. Os sintomas são dor ao urinar, urgência miccional, febre e, nos casos mais graves, dor lombar por comprometimento dos rins.

    Infecção ocular

    Pode causar ceratite – inflamação da córnea – especialmente em usuários de lentes de contato que não higienizam adequadamente os acessórios. Os sintomas são dor, vermelhidão, sensibilidade à luz e visão turva. Sem tratamento rápido, pode evoluir para úlcera de córnea e perda visual.

    Sepse

    Quando a bactéria cai na corrente sanguínea, causa sepse – resposta inflamatória generalizada que pode evoluir rapidamente para falência de múltiplos órgãos. É a forma mais grave e tem alta mortalidade, especialmente em pacientes imunodeprimidos.

    Os sinais de alerta são febre alta ou hipotermia, pressão baixa, frequência cardíaca acelerada, confusão mental e piora rápida do estado geral.

    Qual médico procurar?

    O médico indicado para tratar infecções por Pseudomonas aeruginosa é o infectologista – especialista em doenças infecciosas, capaz de identificar o perfil de resistência da bactéria e escolher o antibiótico mais adequado para cada caso.

    Dependendo do local da infecção, outros especialistas podem ser envolvidos no cuidado:

    • Pneumologista ou intensivista – nas infecções respiratórias e nos casos de UTI;
    • Otorrinolaringologista – nas infecções de ouvido;
    • Oftalmologista – nas infecções oculares;
    • Urologista ou nefrologista – nas infecções urinárias graves;
    • Cardiologista – nos casos de endocardite, infecção nas válvulas cardíacas.

    Diante de febre persistente sem causa aparente, piora do estado geral ou sinais de infecção em qualquer região do corpo – especialmente em pessoas com imunidade comprometida ou em uso de dispositivos médicos – busque avaliação médica.

    Exames que auxiliam no diagnóstico da infecção por Pseudomonas aeruginosa

    O diagnóstico de infecção por Pseudomonas aeruginosa exige a identificação da bactéria na amostra coletada do local afetado – não existe exame de sangue que confirme a presença da bactéria sem cultura.

    O principal exame é a cultura microbiológica – que pode ser solicitada a partir de amostras de secreção, urina, sangue, líquido cefalorraquidiano ou lavado broncoalveolar, conforme o local suspeito de infecção.

    Os laboratórios Dasa, realizam a Cultura de Vigilância para Pseudomonas spp. e Acinetobacter spp., exame específico para identificar pacientes colonizados por essas bactérias, mas tal teste não é adequado para guiar tratamento de pacientes infectados.

    No caso de infecção, é necessário solicitar cultura aeróbia de amostra do sítio afetado, em conjunto com o antibiograma – teste que avalia a sensibilidade da bactéria a diferentes antibióticos. Esse resultado é fundamental para guiar o tratamento, especialmente diante da crescente resistência da Pseudomonas aeruginosa a múltiplas classes de antibióticos.

    Outros exames que podem ser solicitados conforme o quadro clínico:

    • Hemograma completo: avalia sinais de infecção e inflamação sistêmica, como leucocitose e alteração na contagem de neutrófilos;
    • Raio-x do tórax: indicado nas suspeitas de pneumonia, para avaliar o comprometimento pulmonar;
    • Tomografia do tórax: solicitada quando o raio-x não é conclusivo ou quando há suspeita de pneumonia grave e necessidade de avaliação mais detalhada;
    • Ecocardiograma: indicado quando há suspeita de endocardite – infecção das válvulas cardíacas – especialmente em usuários de drogas injetáveis ou pacientes com cateteres vasculares de longa permanência;
    • Hemocultura: coleta de sangue para cultura, obrigatória quando há suspeita de sepse.

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    Formas de tratamento

    O tratamento da infecção por Pseudomonas aeruginosa é um dos maiores desafios da infectologia atual. A bactéria possui mecanismos naturais e adquiridos de resistência que limitam as opções terapêuticas – e o perfil de resistência varia de cepa para cepa. Por isso, o antibiograma é indispensável para orientar a escolha do antibiótico.

    Os antibióticos com atividade antipseudomonas utilizados na prática clínica incluem:

    • Beta-lactâmicos antipseudomonas: piperacilina-tazobactam, ceftazidima, cefepima e aztreonam – considerados como primeira linha de tratamento;
    • Carbapenêmicos: meropenem, imipenem e doripenem – reservados para quando há resistência aos antibióticos de primeira linha;
    • Fluoroquinolonas: ciprofloxacino e levofloxacino – além de poderem ser utilizado por via intravenosa, são as únicas opções de antibióticos orais antipseudomonas;
    • Aminoglicosídeos: amicacina, gentamicina e tobramicina – podem ser usados em combinação com beta-lactâmicos para aumentar a eficácia em casos de multirresistência;
    • Novos beta-lactâmicos com inibidores de betalactamase: ceftolozano-tazobactam e ceftazidima-avibactam – opções para cepas multirresistentes.

    Nos casos de infecção por Pseudomonas aeruginosa multirresistente ou panresistente – quando praticamente nenhum antibiótico convencional funciona – pode ser necessário o uso de polimixinas, como a colistina, em combinação com outros agentes. O tratamento é sempre hospitalar, supervisionado por infectologista, com monitoramento rigoroso da resposta clínica e dos exames laboratoriais.

    O tempo de tratamento varia conforme a gravidade e o local da infecção: infecções de ouvido leves podem responder a gotas antibióticas em poucos dias; pneumonias e bacteremias graves podem exigir semanas de antibioticoterapia intravenosa em UTI.

    Além dos antibióticos, o controle da fonte de infecção é fundamental: retirada de cateter contaminado, desbridamento de feridas, drenagem de abscessos e eliminação de dispositivos médicos colonizados são medidas que aumentam as chances de sucesso do tratamento.

     

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