Cólera: uma ameaça perigosa e silenciosa
Casos graves devem ser tratados imediatamente, já que a doença pode levar à morte
Depois de muitos anos em queda, os casos de cólera no mundo voltaram a aumentar. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), de janeiro de 2023 a março de 2024, 31 países registraram casos ou declararam surto de cólera.
Neste artigo, você vai ler:
Em abril de 2024, depois de 18 anos, o Brasil registrou um caso autóctone de cólera: um idoso de 60 anos contraiu a doença aqui mesmo, não foi um caso importado de países com surtos da doença.
A grande maioria das pessoas infectadas (75% a 80%) não tem grandes complicações – muitas são inclusive assintomáticas – mas ainda assim podem transmitir a bactéria.
Cólera: o que é?
A cólera é uma doença infecciosa intestinal aguda, provocada pela ingestão de água ou alimentos contaminados com a bactéria Vibrio cholerae. Essa bactéria, ao se instalar no intestino delgado, libera uma enterotoxina potente, que desregula o fluxo de sódio e cloreto nas células intestinais, levando a uma massiva secreção de água e eletrólitos para o lúmen intestinal.
O resultado é a diarreia aquosa e volumosa, sintoma clássico da cólera, que pode levar à desidratação severa em poucas horas – podendo inclusive ser fatal, se não houver intervenção médica imediata.
Como ocorre a transmissão do cólera?
A principal forma de transmissão é o consumo de água ou alimentos contaminados por fezes de pessoas infectadas. Isso explica por que surtos são comuns em áreas sem acesso a saneamento básico ou após desastres naturais, como enchentes.
Embora menos comum, o contato direto com fezes de pessoas infectadas ou com objetos contaminados também pode levar à transmissão da cólera caso não haja higiene correta das mãos. Além disso, em ambientes com saneamento precário, moscas podem transportar a bactéria Vibrio cholerae das fezes para alimentos e utensílios, contribuindo para a transmissão da cólera.
Formas de prevenir o cólera
A principal forma de prevenir a cólera é com o saneamento básico adequado, incluindo o tratamento e a distribuição de água potável para toda a população. Mas, a nível individual, as principais medidas de prevenção seriam:
- Lavar as mãos frequentemente com água e sabão, especialmente antes de comer e depois de usar o banheiro e do uso de álcool em gel 70% quando não houver água e sabão disponíveis;
- Lavar e desinfetar frutas, verduras e legumes antes do consumo, cozinhar bem os alimentos, especialmente frutos do mar;
- Armazenar os alimentos de forma adequada e evitar o contato com moscas e outros insetos.
- Lavar e desinfetar as superfícies, utensílios e equipamentos usados na preparação de alimentos;
- Tratar a água para consumo: caso não haja acesso a água filtrada, utilize um filtro doméstico e proceda da seguinte forma: após filtrar, ferver ou colocar duas gotas de solução de hipoclorito de sódio a 2,5% para cada litro de água, aguardar por 30 minutos antes de usar).
Sintomas
Em muitos casos, a infecção pode ser assintomática ou causar apenas diarreia leve. Mas, nos casos mais graves, a diarreia é abundante e aquosa, com aspecto “água de arroz”. Como muitas vezes vem acompanhada de vômitos, a perda de líquidos e eletrólitos pode ser muito rápida e intensa.
Em alguns casos, a perda de líquidos pode ultrapassar 1 litro por hora, o que poderia levar ao choque hipovolêmico, insuficiência renal e até mesmo óbito.
Outros sintomas podem se manifestar de forma menos intensa, como febre baixa e mal-estar geral, que são frequentemente ignorados, mas que podem ser indicativos do início da infecção.
Qual médico procurar?
Quando surgem os primeiros sinais de uma possível infecção por cólera, a orientação é buscar atendimento médico de emergência. Em geral, um clínico geral é o primeiro profissional a ser consultado, pois ele poderá avaliar o estado de desidratação e encaminhar o paciente para exames complementares.
Em situações de surto de cólera ou em casos mais graves, pode ser necessário o acompanhamento de um infectologista, profissional que pode fornecer um acompanhamento mais específico e completo, além de orientar sobre medidas de prevenção e controle da cólera.
Exames que auxiliam no diagnóstico do cólera
O diagnóstico da cólera é baseado nos sintomas apresentados pelo paciente, principalmente a diarreia aquosa e volumosa e em exames laboratoriais para confirmar o diagnóstico e identificar a bactéria Vibrio cholerae. Entre eles, o exame de cultura de fezes é o método mais utilizado, pois permite a identificação precisa do agente patogênico e a determinação de sua sensibilidade a diferentes antibióticos.
Além dele, testes de detecção do patógeno por biologia molecular oferecem a vantagem da rapidez do resultado, podendo ser utilizados também em situações de surto, possibilitando uma resposta imediata e a implementação de medidas de controle.
Outros exames podem ser solicitados para avaliar o grau de desidratação e os desequilíbrios eletrolíticos causados pela perda de líquidos. Testes bioquímicos do sangue, como a dosagem de potássio, sódio e outros eletrólitos, ajudam a monitorar a condição clínica do paciente e a ajustar as medidas de reidratação.
Tratamentos para o cólera
O tratamento da cólera é pautado principalmente na reposição rápida e eficaz dos líquidos e eletrólitos perdidos, sendo a reidratação a medida terapêutica mais importante. Em casos leves a moderados, a administração de soluções de reidratação oral (SRO) costuma ser suficiente. Já em situações mais graves, a reidratação intravenosa torna-se indispensável.
O uso de antibióticos também pode ser indicado para reduzir a duração da infecção e a quantidade de bactérias presentes no organismo. Em muitos casos, a combinação de medidas de reidratação e antibioticoterapia tem se mostrado eficaz na redução das taxas de mortalidade associadas à cólera.
Outras medidas complementares podem ajudar na recuperação do paciente. A suplementação de zinco pode reduzir a duração e a gravidade da diarreia (especialmente em crianças) e o uso de probióticos pode ajudar a restaurar a flora intestinal.