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    Doença de Lyme é transmitida por carrapato e tem tratamento com antibióticos

    A lesão em forma de alvo na pele é o sinal mais característico, mas nem todos os infectados a apresentam

    Fonte: Dra. Luisa Frota ChebaboInfectologistaPublicado em 03/06/2026, às 17:11 - Atualizado em 03/06/2026, às 17:11

    doença de lyme

    doença de Lyme é uma infecção bacteriana transmitida pela picada de carrapatos do gênero Ixodes infectados com a bactéria Borrelia burgdorferi. É a doença transmitida por carrapatos mais comum no mundo, especialmente nos Estados Unidos, Europa e partes da Ásia. 

    A infecção foi descrita pela primeira vez em 1976, quando um surto de artrite em crianças na cidade de Lyme, em Connecticut (EUA), levou pesquisadores a identificar o carrapato-de-veado como vetor da doença.  

    No Brasil, não há registros da doença. 

    Quando tratada nas fases iniciais com antibióticos, a doença de Lyme tem excelente prognóstico. Sem tratamento, pode evoluir para complicações graves no sistema nervoso, no coração e nas articulações.

    Doença de Lyme: o que é? 

    A doença de Lyme é uma infecção bacteriana sistêmica, ou seja, que pode afetar vários sistemas do organismo ao mesmo tempo. Ela é transmitida pela picada de carrapatos do gênero Ixodes infectados com a bactéria Borrelia burgdorferi. E, mais raramente, por outras espécies do gênero Borrelia. 

    A doença evolui em três estágios: 

    • Estágio 1 (localizada precoce): acontece entre o primeiro e o 28º dia após a picada. A infecção ainda está restrita ao local da picada e à pele ao redor. 
    • Estágio 2 (disseminada precoce): do primeiro ao quarto mês após a infecção. A bactéria começa a se espalhar pelo organismo, podendo atingir articulações, coração e sistema nervoso. 
    • Estágio 3 (disseminada tardia): ocorre meses ou anos após a picada, quando a doença não foi tratada nas fases anteriores. É o estágio com maior risco de complicações permanentes.

    É importante diferenciar a doença de Lyme da febre maculosa, outra doença transmitida por carrapatos no Brasil, mas causada por uma bactéria diferente (Rickettsia rickettsii) e com sintomas distintos.  

    O carrapato que transmite a doença de Lyme pertence ao gênero Ixodes, enquanto a febre maculosa é transmitida pelo carrapato-estrela (Amblyomma sculptum). 

    Como ocorre a transmissão da doença de Lyme? 

    A transmissão acontece pela picada de um carrapato do gênero Ixodes, especialmente o Ixodes scapularis (carrapato-de-veado) nos Estados Unidos e o Ixodes ricinus na Europa, infectado com a bactéria Borrelia burgdorferi. 

    No Brasil, as espécies presentes de carrapato Ixodes não são as que transmitem a doença de Lyme. 

    Para que a transmissão aconteça, o carrapato precisa estar fixado na pele por pelo menos 24 a 36 horas. Quanto mais tempo o carrapato fica preso, maior o risco de transmissão da bactéria. Por isso, a remoção rápida após uma picada é importante. 

    Os carrapatos do gênero Ixodes são muito pequenos – nas fases de ninfa, podem ter o tamanho de uma semente de papoula – o que dificulta a identificação. Muitas pessoas diagnosticadas com a doença de Lyme não se lembram de ter sido picadas. 

    Pontos importantes sobre a transmissão: 

    • A doença não se transmite de pessoa para pessoa; 
    • Não há transmissão por contato com animais infectados, apenas pela picada do carrapato vetor; 
    • Os carrapatos são mais ativos quando a temperatura está acima de 7°C e a umidade é alta, como na primavera e no verão; 
    • As áreas de maior risco são matas, campos com vegetação alta, acampamentos e trilhas em regiões endêmicas.

    Há uma condição descrita no Brasil chamada Síndrome Baggio-Yoshinari, que supostamente tem características clínicas semelhantes às da doença de Lyme, cujo agente causador e vetor não estão esclarecidos. No entanto, revisões científicas recentes confirmaram que não há evidências que sustentem a existência dessa síndrome ou da bactéria da doença de Lyme em território nacional. 

    Como prevenir 

    Não existe vacina disponível contra a doença de Lyme. A prevenção se baseia em evitar a picada do carrapato e remover o animal rapidamente caso ocorra uma picada. 

    Sendo assim, as principais medidas preventivas são: 

    • Use roupas protetoras em áreas de risco: calças compridas, camisas de manga longa e botas fechadas. Inserir a calça dentro da meia ajuda a evitar que o carrapato suba pela perna. 
    • Aplique repelente com DEET, icaridina ou IR3535 na pele e nas roupas antes de entrar em áreas com vegetação densa. 
    • Evite andar pelo meio da vegetação: prefira o centro das trilhas, longe de arbustos e folhas secas no chão. 
    • Inspecione a pele e o couro cabeludo após exposição a áreas de risco, especialmente nas dobras do corpo: axilas, virilha, atrás dos joelhos, pescoço e cabelo. 
    • Inspecione animais domésticos que circulam em áreas externas, pois eles podem carregar carrapatos para dentro de casa. 
    • Remova o carrapato corretamente: use uma pinça de ponta fina e puxe com movimentos suaves e firmes, próximo à pele. Não esmague o corpo do carrapato, não aplique calor nem substâncias sobre ele. Após remover, lave bem a área com água e sabão. Guarde o carrapato em um recipiente fechado caso precise identificá-lo posteriormente. 
    • Busque avaliação médica se desenvolver febre, erupção cutânea ou outros sintomas nas semanas seguintes a uma picada em área de risco.

    Sintomas da doença de Lyme 

    No estágio inicial, o sinal mais característico é a lesão na pele chamada eritema migrans: uma mancha avermelhada que se expande gradualmente a partir do local da picada, podendo assumir um aspecto em forma de alvo (anel avermelhado com centro mais claro). Ela aparece entre 3 e 30 dias após a picada e pode atingir 5 cm ou mais de diâmetro. 

    Mas atenção: nem todos os infectados desenvolvem essa lesão. Algumas pessoas não chegam a apresentá-la, o que dificulta o diagnóstico. 

    Outros sintomas comuns na fase inicial são: 

    • Febre e calafrios; 
    • Dor de cabeça; 
    • Fadiga intensa; 
    • Dores musculares e articulares; 
    • Gânglios linfáticos inchados; 
    • Rigidez de nuca.

    Quando a doença avança para o estágio disseminado e o caso não é tratado, os sintomas se tornam mais graves e variados: 

    • Articulares: dores e inchaço nas articulações, especialmente nos joelhos. Podem evoluir para artrite crônica. 
    • Neurológicos: dormência e formigamento nos membros, dores irradiadas, fraqueza facial (paralisia de Bell), meningite, encefalite e dificuldade de concentração. 
    • Cardíacos: arritmias e bloqueio atrioventricular — alteração na condução elétrica do coração que pode causar tontura, falta de ar e desmaio. Em casos graves, pode ser necessário o uso de marcapasso temporário. 
    • Oculares: visão turva e inflamação dos olhos.

    Em alguns pacientes, mesmo após o tratamento adequado, sintomas como fadiga, dor e dificuldade de concentração podem persistir por semanas ou meses. Essa condição é chamada de síndrome pós-tratamento da doença de Lyme, e ainda é objeto de estudo pelos pesquisadores. 

    Riscos 

    Quando não tratada ou tratada tardiamente, a doença de Lyme pode causar complicações sérias e duradouras. Os principais riscos associados à progressão da doença são: 

    • Artrite de Lyme: o envolvimento das articulações é uma das complicações mais comuns da doença tardia, especialmente nos joelhos. Pode causar dor intensa, inchaço e limitação de movimento.
    • Neuroborreliose: nome dado às complicações neurológicas da doença de Lyme. Inclui meningite, encefalite, paralisia facial, radiculopatias e polineuropatia. Podem causar dor, formigamento e fraqueza persistentes.
    • Cardite de Lyme: inflamação do músculo cardíaco e alterações no sistema de condução elétrica do coração. Pode causar hipotensão, tontura e desmaio.
    • Comprometimento renal: raramente, em casos graves, a doença pode afetar a função dos rins, levando a quadros de insuficiência renal.
    • Síndrome pós-tratamento: mesmo após o curso correto de antibióticos, alguns pacientes relatam fadiga persistente, dores e dificuldade de raciocínio por meses. As causas ainda não estão completamente esclarecidas.

    O risco de complicações é diretamente proporcional ao tempo sem tratamento. Por isso, suspeita de doença de Lyme deve ser investigada rapidamente, especialmente em pessoas que estiveram em áreas endêmicas. 

    Qual médico procurar? 

    O médico mais indicado para avaliar e tratar a doença de Lyme é o infectologista, que é o especialista em doenças infecciosas. Em alguns casos, dependendo das complicações presentes, outros especialistas podem ser envolvidos no cuidado: 

    • Reumatologista, quando há comprometimento articular significativo; 
    • Neurologista, nos casos com sintomas neurológicos como paralisia facial, meningite ou neuropatia; 
    • Cardiologista, quando há arritmias ou bloqueio cardíaco associados.

    Ao consultar o médico, informe sempre sobre possíveis exposições a carrapatos ou visitas a áreas de mata, acampamentos ou regiões endêmicas, especialmente se os sintomas surgiram nas semanas seguintes a essa exposição. Essa informação é fundamental para que o médico inclua a doença de Lyme entre as hipóteses diagnósticas. 

    Exames que auxiliam no diagnóstico da doença de Lyme 

    O diagnóstico da doença de Lyme é baseado na combinação de critérios clínicos e laboratoriais. O histórico de exposição a carrapatos em área de risco, junto com os sintomas típicos (especialmente o eritema migrans), já levanta forte suspeita diagnóstica. 

    Os principais exames solicitados são: 

    • Sorologia em dois estágios (ELISA + Western blot): é o método diagnóstico padrão. O primeiro passo é o teste ELISA, que avalia a presença de anticorpos contra a Borrelia burgdorferi. Se o resultado for positivo ou indeterminado, um segundo teste (o Western blot) é feito para confirmar. Juntos, os dois exames têm boa sensibilidade e especificidade. Vale lembrar que os anticorpos podem levar de 3 a 6 semanas para atingir níveis detectáveis, o que significa que um exame negativo nas primeiras semanas não descarta a infecção.
    • PCR (reação em cadeia da polimerase): detecta o material genético da bactéria diretamente em líquido sinovial (articulações) ou líquido cefalorraquidiano (punção lombar), mas tem limitações e deve ser interpretado com cautela.
    • Cultivo bacteriano: considerado padrão-ouro para o diagnóstico definitivo, mas pouco usado na prática clínica por ser demorado e de baixa sensibilidade.
    • Punção lombar: solicitada quando há suspeita de comprometimento neurológico (neuroborreliose), para análise do líquido cefalorraquidiano.
       Eletrocardiograma: indicado quando há sintomas cardíacos, como palpitações, tontura ou desmaio, para avaliar possível bloqueio atrioventricular.

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    Formas de tratamento para a doença de Lyme

    A doença de Lyme é tradada com antibióticos. A maioria dos casos tratados nas fases iniciais se resolve em 10 a 14 dias de antibioticoterapia, com recuperação rápida e completa na maioria dos pacientes. 

    Os antibióticos mais usados são a doxiciclina, a amoxicilina e a cefuroxima axetil. A escolha do medicamento, a dose e a duração do tratamento dependem do estágio da doença, da presença de complicações e das características do paciente, como idade e gravidez. 

    • Estágio inicial (eritema migrans sem complicações): antibióticos orais por 10 a 21 dias, conforme avaliação médica. 
    • Comprometimento neurológico ou cardíaco grave: pode ser necessário o uso de antibióticos intravenosos (como a ceftriaxona) com internação hospitalar. 
    • Artrite de Lyme: antibióticos orais por 28 dias. Se os sintomas persistirem, uma segunda rodada de antibióticos ou infiltrações com corticoide podem ser avaliadas. 

    Não existe tratamento eficaz comprovado para a síndrome pós-tratamento. Neste caso, a abordagem é sintomática, focada no alívio da fadiga, da dor e das alterações cognitivas. 

    O paciente não deve interromper o tratamento antes do prazo indicado, mesmo que os sintomas melhorem. E nem se automedicar: o uso inadequado de antibióticos pode mascarar o diagnóstico e criar resistência bacteriana.

     

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