Carrapato estrela: como identificar, onde vive e que doenças transmite
Nem todo carrapato estrela está infectado, mas a picada pode transmitir a febre maculosa, doença grave que exige tratamento imediato

O carrapato estrela é um dos parasitas mais perigosos do Brasil. Ele é o principal transmissor da febre maculosa, doença infecciosa grave que, sem tratamento precoce, pode levar à morte em poucos dias.
Nem todo carrapato estrela está infectado. Estudos do Ministério da Saúde indicam que apenas cerca de 1% dos carrapatos encontrados na natureza carregam a bactéria causadora da doença. Ainda assim, o contato deve ser evitado, e qualquer picada em área de risco merece atenção.
Neste artigo, você vai ler:
Carrapato estrela: o que é?
O carrapato estrela tem o nome científico Amblyomma sculptum, sendo que anteriormente era conhecido como Amblyomma cajennense. É um artrópode da família dos aracnídeos, assim como as aranhas e os escorpiões, e passa por três fases ao longo da vida: larva, ninfa e adulto.
Cada fase tem um tamanho e um nome popular diferente:
- Larva: chamada de micuim ou vermelhinho, é minúscula, do tamanho de uma cabeça de alfinete. Por ser tão pequena, muitas pessoas não percebem que foram picadas;
- Ninfa: um pouco maior que a larva, mas ainda muito pequena. Também é chamada de vermelhinho em algumas regiões;
- Adulto: tem cerca de 1 cm de comprimento. Quando se alimenta de sangue, pode ficar ainda maior. É nessa fase que o carrapato recebe o nome popular de “estrela”: o desenho no dorso do corpo lembra uma estrela.
O carrapato estrela se alimenta de sangue de animais de grande porte – como cavalos, bois, vacas e capivaras. Os humanos não são hospedeiros naturais, mas podem ser picados quando entram em contato com áreas onde o carrapato vive.
Em que tipo de locais o carrapato estrela vive?
O carrapato estrela vive em ambientes com vegetação e presença de animais de grande porte. Os locais de maior risco são:
- Áreas de mata e floresta;
- Pastagens e fazendas com cavalos, bois e vacas;
- Beiras de rios e lagos;
- Áreas urbanas e periurbanas com presença de capivaras – como parques, represas e margens de corpos d’água em cidades do interior de São Paulo e de outras regiões do Sudeste.
A capivara é o principal hospedeiro do parasita e, quando infectada pela bactéria causadora da febre maculosa, amplifica a quantidade de bactérias circulantes no sangue – o que permite que novos carrapatos se infectem ao se alimentar dela.
O carrapato estrela está presente em todo o Brasil, mas os casos de febre maculosa são mais concentrados nas regiões Sudeste e Sul. O estado de São Paulo concentra a maior parte dos casos registrados no país, especialmente em municípios do interior com áreas de cerrado e mata ciliar.
A doença é mais frequente entre os meses de junho e novembro, período em que predominam as formas jovens do carrapato (micuins), que são muito pequenas e difíceis de perceber na pele.
Como evitar o contato com o carrapato estrela?
A principal forma de prevenção é evitar a exposição em áreas onde o carrapato estrela vive. Mas, quando isso não for possível – em atividades ao ar livre, trilhas, fazendas ou áreas com capivaras -, algumas medidas ajudam a reduzir o risco:
- Use roupas claras, calças compridas e camisas de manga longa. Inserir a calça dentro da meia dificulta que o carrapato suba pelo corpo;
- Use repelentes na pele e nas roupas – embora tenham eficácia menor para carrapatos do que para mosquitos, ainda oferecem alguma proteção;
- Prefira trilhas e caminhos abertos, evitando a vegetação rasteira e o contato com a grama alta;
- Ao voltar de áreas de risco, inspecione cuidadosamente toda a pele – especialmente couro cabeludo, pescoço, axilas, virilha e atrás dos joelhos. Peça a outra pessoa para verificar as regiões de difícil visualização;
- Inspecione também roupas, mochilas e pets que estiveram na área;
- Fique atento a placas de sinalização em áreas de risco e pergunte a moradores locais e guias sobre a presença de carrapatos na região.
Todo carrapato estrela transmite doenças?
Não. Apenas uma pequena parcela dos carrapatos estrela encontrados na natureza está infectada com a bactéria causadora da febre maculosa. Estudos indicam que cerca de 1% dos carrapatos carregam a Rickettsia rickettsii – a espécie mais grave associada à doença no Brasil.
Além disso, para que a transmissão aconteça, o carrapato precisa estar fixado na pele por pelo menos 4 horas. Quanto mais tempo ele ficar preso, maior o risco de transmissão. Por isso, ao perceber uma picada, tente remover o parasita rapidamente.
Existem outras espécies do gênero Amblyomma que também podem transmitir bactérias do gênero Rickettsia – como o Amblyomma aureolatum, mais comum na região metropolitana de São Paulo, associado a áreas de Mata Atlântica e a cães com acesso a fragmentos de mata. Mas é o carrapato estrela (A. sculptum) o principal responsável pelos casos de febre maculosa no interior do país.
Quais doenças podem ser transmitidas pelo carrapato estrela?
A principal doença transmitida pelo carrapato estrela é a febre maculosa. Ela é causada pela bactéria Rickettsia rickettsii, que entra na corrente sanguínea pela picada do carrapato infectado e provoca uma inflamação nos vasos sanguíneos – condição chamada de vasculite.
A doença não se transmite de pessoa para pessoa. O único caminho de contágio é a picada do carrapato infectado.
Sem tratamento, a febre maculosa pode evoluir rapidamente para formas graves, com comprometimento dos rins, dos pulmões, do sistema nervoso central e das lesões vasculares, podendo levar à morte. A taxa de letalidade pode chegar a 80% nos casos sem tratamento adequado, segundo o Ministério da Saúde.
Existe também uma forma menos grave da doença, causada pela Rickettsia sp. cepa Mata Atlântica, mais comum em áreas de Mata Atlântica preservada. Os sintomas são mais brandos, mas ainda exigem avaliação médica.
Como agir ao notar uma picada de carrapato estrela na pele?
Se você encontrar um carrapato fixado na pele, a remoção deve ser feita o quanto antes, mas com cuidado:
- Use uma pinça de ponta fina e puxe o carrapato com movimentos suaves e firmes, próximo à pele, sem torcer ou girar;
- Não esmague o corpo do carrapato com os dedos, não aplique calor, vaselina, álcool ou qualquer outra substância sobre ele – essas ações podem fazer o carrapato regurgitar e aumentar o risco de transmissão da bactéria;
- Após remover o carrapato, lave bem a área com água e sabão e aplique antisséptico;
- Guarde o carrapato em um recipiente fechado, se possível – ele pode ser útil para identificação posterior.
Depois da remoção, fique atento ao surgimento de sintomas nas semanas seguintes. Se você esteve em área de risco e desenvolver febre alta, dor de cabeça intensa, dores musculares ou manchas vermelhas na pele – especialmente nas palmas das mãos e plantas dos pés – busque atendimento médico imediatamente e informe sobre a possível exposição ao carrapato.
Como diagnosticar a febre maculosa?
O diagnóstico da febre maculosa é clínico e laboratorial, e precisa ser feito com urgência. Os sintomas iniciais surgem entre 2 e 14 dias após a picada – com média de 7 dias – e são parecidos com os de outras doenças, como dengue, leptospirose e gripe.
Por isso, ter estado em área de risco nos dias anteriores e o início dos sintomas são informações que o médico precisa saber para levantar a suspeita de febre maculosa mesmo antes dos resultados dos exames.
Os exames laboratoriais solicitados são:
- Reação de imunofluorescência indireta (RIFI): detecta anticorpos contra a bactéria no sangue. É o exame confirmatório mais utilizado, feito em duas coletas com intervalo mínimo de 14 dias;
- Imunohistoquímica: detecta a bactéria em amostras de tecido obtidas por biópsia das lesões de pele. É útil para confirmação nos casos graves;
- Hemograma: pode mostrar queda de plaquetas e outras alterações inespecíficas que, somadas ao quadro clínico, reforçam a suspeita;
- Enzimas hepáticas: podem estar elevadas nos casos mais graves, indicando comprometimento do fígado.
O Ministério da Saúde orienta que o tratamento com antibiótico deve ser iniciado imediatamente diante da suspeita clínica – sem esperar a confirmação laboratorial. Atrasar o início do tratamento reduz significativamente as chances de sobrevivência.
Formas de tratamento para a febre maculosa
A febre maculosa tem cura, mas desde que o tratamento seja iniciado precocemente. O antibiótico de escolha é a doxiciclina, que deve ser iniciado idealmente nos primeiros 3 dias após o início dos sintomas. Quanto mais cedo o tratamento começa, maiores as chances de recuperação completa.
O esquema habitual é de 10 a 14 dias de antibioticoterapia. Nas primeiras doses, o quadro já começa a regredir – e a maioria dos pacientes tratados precocemente se recupera sem sequelas.
Nos casos mais graves – com comprometimento neurológico, renal ou pulmonar – a internação hospitalar é necessária, com suporte clínico intensivo.
A diarreia e os vômitos são sintomas que podem surgir junto com a febre maculosa e contribuir para a desidratação do paciente – o que torna ainda mais importante o atendimento médico rápido para avaliação e reposição de líquidos quando necessário.
A febre maculosa é de notificação compulsória imediata no Brasil. Todo caso suspeito deve ser comunicado às autoridades de saúde em até 24 horas – o que permite o rastreamento de áreas de risco e a adoção de medidas de vigilância epidemiológica.