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    Mucopolissacaridose: o que é, tipos, sintomas e tratamento

    A doença afeta ossos, articulações, coração e sistema nervoso, e tem tratamento disponível no SUS para alguns tipos

    Fonte: Dr. Gustavo Guida Godinho da FonsecaGeneticista e Coordenador médico da Triagem Neonatal da DasaPublicado em 24/09/2026, às 11:24 - Atualizado em 24/09/2026, às 11:24

    mucopolissacaridose

    A mucopolissacaridose é uma doença rara que começa a se revelar ainda nos primeiros anos de vida. O corpo acumula substâncias que não consegue degradar – e esse acúmulo vai danificando órgãos e tecidos de forma progressiva. 

    Quanto antes o diagnóstico é feito, maiores as chances de preservar a qualidade de vida da criança.

    Mucopolissacaridose: o que é? 

    A mucopolissacaridose é um grupo de doenças genéticas raras causadas pela deficiência de enzimas lisossômicas específicas – proteínas responsáveis por quebrar e eliminar cadeias de açúcares complexos chamados glicosaminoglicanos (GAG) ou mucopolissacarídeos.  

    Quando essas enzimas estão ausentes ou funcionam de forma insuficiente, os glicosaminoglicanos se acumulam nos lisossomos, pequenas estruturas presentes dentro das células – e em vários órgãos e tecidos do corpo. 

    Esse acúmulo progressivo causa danos em múltiplos sistemas: ossos, articulações, coração, pulmões, fígado, baço, sistema nervoso e outros órgãos podem ser comprometidos em graus variados conforme o tipo da doença. 

    As mucopolissacaridoses fazem parte do grupo dos erros inatos do metabolismo – condições hereditárias em que o organismo não consegue realizar adequadamente uma etapa do processamento de substâncias essenciais. Já foram identificados 11 defeitos enzimáticos diferentes que causam sete tipos distintos de MPS. 

    Possíveis causas para a mucopolissacaridose 

    A mucopolissacaridose é causada por mutações genéticas que levam à deficiência ou ausência de uma enzima lisossômica específica, responsável pelo processamento de um tipo particular de glicosaminoglicano. Cada tipo de MPS está associado a uma enzima diferente e a um glicosaminoglicano diferente. 

    A maioria dos tipos segue um padrão de herança autossômica recessiva – o que significa que a criança precisa herdar uma cópia do gene alterado de cada um dos pais para desenvolver a doença. Os pais, que têm apenas uma cópia alterada, são portadores e geralmente não apresentam sintomas. 

    A exceção é a MPS tipo II (síndrome de Hunter), que segue herança recessiva ligada ao cromossomo X – por isso afeta quase exclusivamente meninos. As meninas podem ser portadoras e raramente desenvolvem a forma grave da doença. 

    Não há fatores ambientais ou comportamentais que causem a doença – ela é inteiramente determinada pela genética. Por isso, casais com histórico familiar de MPS ou que já tiveram um filho afetado devem buscar aconselhamento genético antes de uma nova gestação. 

    Sintomas da mucopolissacaridose 

    Os sintomas da mucopolissacaridose variam conforme o tipo e a gravidade de cada caso. De modo geral, as crianças afetadas parecem saudáveis ao nascer e os primeiros sinais surgem progressivamente ao longo dos primeiros meses ou anos de vida. 

    Os sintomas mais comuns, que podem estar presentes em graus variados nos diferentes tipos de MPS, são: 

    • Traços faciais grosseiros, como fronte proeminente, nariz achatado, lábios espessados e língua aumentada; 
    • Baixa estatura e crescimento abaixo do esperado para a faixa etária; 
    • Rigidez e contraturas das articulações, especialmente dos dedos das mãos; 
    • Cabelos grossos e abundantes; 
    • Aumento do fígado e do baço (hepatoesplenomegalia); 
    • Hérnias umbilicais e inguinais frequentes; 
    • Problemas respiratórios como obstrução das vias aéreas, ronco intenso e apneia do sono; 
    • Comprometimento cardíaco, especialmente alterações nas válvulas do coração; 
    • Perda de audição progressiva; 
    • Problemas de visão, incluindo opacidade da córnea; 
    • Alterações no esqueleto: disostoses múltiplas, que afetam a forma e a estrutura dos ossos; 
    • Comprometimento neurológico e regressão do desenvolvimento – presentes nos tipos mais graves; 
    • Hidrocefalia, ou seja, acúmulo de líquido ao redor do cérebro. 

    Em alguns tipos, como a MPS III (síndrome de Sanfilippo), o comprometimento neurológico é o sintoma dominante, com comportamento agressivo, hiperatividade, perda de habilidades adquiridas e deterioração cognitiva progressiva.  

    Em outros, como a MPS IV (síndrome de Morquio), os problemas esqueléticos são os mais pronunciados, enquanto a inteligência costuma ser preservada. 

    Qual médico procurar? 

    O médico indicado para o diagnóstico e o acompanhamento da mucopolissacaridose é o geneticista clínico, o especialista em doenças genéticas e erros inatos do metabolismo. Em muitos casos, o diagnóstico é levantado pelo pediatra, que percebe os sinais de alerta durante as consultas de rotina e encaminha para a avaliação especializada. 

    Por ser uma doença multissistêmica, o acompanhamento da MPS envolve uma equipe multiprofissional, que pode incluir: 

    • Neuropediatra, para acompanhamento do desenvolvimento neurológico; 
    • Cardiologista pediátrico, para monitoramento das válvulas cardíacas; 
    • Pneumologista, para avaliação das vias aéreas e da função pulmonar; 
    • Ortopedista, para manejo das alterações esqueléticas; 
    • Oftalmologista, para acompanhamento da córnea e da visão;  
    • Otorrinolaringologista, para avaliação da audição; 
    • Fisioterapeuta, terapeuta ocupacional e fonoaudiólogo – para reabilitação e manutenção das funções motoras e de linguagem.

    Exames que auxiliam no diagnóstico da mucopolissacaridose 

    O diagnóstico da mucopolissacaridose é feito pela combinação de avaliação clínica, exames laboratoriais e, quando necessário, confirmação genética. O histórico familiar e os sinais clínicos são o ponto de partida – e a suspeita deve ser levantada precocemente, pois o diagnóstico tardio pode comprometer o resultado do tratamento. 

    Os principais exames utilizados são: 

    • Dosagem de glicosaminoglicanos (GAG) na urina: é o exame de triagem mais utilizado. O acúmulo de GAG leva ao aumento de sua excreção pela urina, o que pode ser detectado por análise qualitativa e quantitativa. Um resultado positivo indica a necessidade de investigação complementar para identificar o tipo específico de MPS; 
    • Análise enzimática em leucócitos ou fibroblastos: confirma o diagnóstico ao medir a atividade da enzima específica suspeita. É o método diagnóstico de referência para a maioria dos tipos de MPS; 
    • Exame de sangue: o hemograma pode mostrar inclusões nos leucócitos – chamadas células de Alder-Reilly – que são características das mucopolissacaridoses; 
    • Teste genético molecular: identifica as mutações específicas no gene responsável. É especialmente importante para o aconselhamento genético dos familiares e para o diagnóstico pré-natal em gestações futuras; 
    • Raio-x do esqueleto: avalia as alterações ósseas características das mucopolissacaridoses, chamadas de disostoses múltiplas – que incluem alterações na forma da coluna, dos ossos longos, das costelas e das mãos; 
    • Ecocardiograma: avalia o comprometimento cardíaco, especialmente das válvulas; 
    • Audiometria: avalia a perda auditiva; 
    • Ressonância magnética do crânio: indicada quando há suspeita de comprometimento neurológico ou hidrocefalia. 

    A triagem neonatal ampliada, que permite identificar a MPS antes do surgimento dos sintomas, ainda não está disponível de forma universal no Brasil, mas é um dos objetivos do Programa Nacional de Triagem Neonatal em expansão.  

    Quando há histórico familiar de MPS, o diagnóstico pré-natal pode ser realizado durante o pré-natal, por análise enzimática de células obtidas por amniocentese ou biópsia de vilo corial. 

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    Formas de tratamento para a mucopolissacaridose 

    O tratamento da mucopolissacaridose varia conforme o tipo e a gravidade da doença. Alguns tipos têm tratamentos específicos disponíveis – tanto pelo SUS quanto pela rede particular. Outros ainda contam apenas com tratamento de suporte. Os principais tipos de abordagem são: 

    Terapia de reposição enzimática (TRE)

    É o tratamento mais utilizado para os tipos de MPS que têm enzima recombinante disponível. Consiste na infusão intravenosa regular – geralmente semanal – de uma versão sintética da enzima deficiente, com o objetivo de reduzir o acúmulo de GAG nos tecidos. 

    Está disponível para os tipos MPS I, II, IV A, VI e VII. A TRE é mais eficaz quando iniciada precocemente, antes que os danos nos órgãos se tornem irreversíveis. Ela age principalmente nos tecidos periféricos – como ossos, articulações, fígado e coração – mas não ultrapassa a barreira hematoencefálica, o que limita sua eficácia nas formas com comprometimento neurológico grave. 

    Transplante de células-tronco hematopoéticas (TCTH) 

    O transplante de medula óssea ou de células-tronco hematopoéticas é o tratamento de escolha para a forma grave da MPS tipo I (síndrome de Hurler), quando realizado precocemente – idealmente antes dos 2,5 anos e antes que o comprometimento cognitivo se estabeleça.  

    Ao substituir as células deficientes por células doadoras saudáveis que produzem a enzima correta, o transplante pode estabilizar ou melhorar o quadro neurológico, algo que a TRE sozinha não consegue. 

    Para outros tipos de MPS, o TCTH tem benefícios mais limitados e não é indicado como tratamento padrão. 

    Tratamento de suporte e reabilitação

    Para todos os tipos de MPS – inclusive aqueles sem terapia específica disponível, como a MPS III -, o tratamento de suporte é fundamental para manter a qualidade de vida e prevenir complicações: 

    • Cirurgias ortopédicas para correção de deformidades e instabilidade da coluna; 
    • Cirurgia cardíaca para substituição de válvulas comprometidas; 
    • Manejo das vias aéreas, incluindo cirurgia de adenoide, uso de CPAP e traqueostomia quando necessário; 
    • Fisioterapia, fonoterapia e terapia ocupacional para manutenção das funções motoras e de linguagem; 
    • Suporte educacional adaptado às necessidades de cada criança. 

    Com um acompanhamento multidisciplinar regular é possível monitorar a evolução da doença, ajustar os tratamentos e identificar precocemente as complicações que precisam de intervenção. 

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