Lipodistrofia: doença rara altera a distribuição de gordura no corpo
O diagnóstico genético pode confirmar formas hereditárias e auxiliar na definição do acompanhamento e do tratamento.

A lipodistrofia é um grupo de condições raras caracterizadas pela perda, ausência ou redistribuição anormal do tecido adiposo, a gordura corporal. Então, a gordura passa a se acumular em órgãos como o fígado e os músculos, causando complicações metabólicas sérias.
Essa condição pode ter origem genética, manifestando-se desde o nascimento, na infância, na puberdade ou mesmo mais tarde, dependendo do tipo; ou pode ser adquirida ao longo da vida, como efeito de certas doenças ou medicamentos. Em qualquer das formas, exige acompanhamento médico contínuo.
Neste artigo, você vai ler:
Lipodistrofias: o que são?
As lipodistrofias são doenças caracterizadas por alterações na quantidade ou na distribuição do tecido adiposo (gordura) no corpo. Dependendo do tipo, a gordura pode estar completamente ausente em algumas regiões, redistribuída de forma anormal ou acumulada em locais onde normalmente não deveria estar.
O tecido adiposo não serve apenas como reserva de energia. Ele também produz hormônios – entre eles a leptina, que regula o apetite e o metabolismo – e participa do equilíbrio metabólico do organismo. Quando esse tecido é insuficiente ou está mal distribuído, o organismo não consegue processar direito as gorduras e os açúcares que ingere.
Por isso, uma série de complicações metabólicas costumam acompanhar a doença: resistência à insulina, diabetes mellitus, triglicerídeos muito elevados, esteatose hepática e doença cardiovascular.
Em muitos casos, essas complicações são mais graves do que a própria alteração na distribuição de gordura.
Tipos de lipodistrofia
As lipodistrofias são classificadas em dois grandes grupos – genéticas e adquiridas – e, dentro de cada grupo, conforme a extensão da perda de gordura: generalizada (afeta o corpo todo) ou parcial (afeta regiões específicas).
Lipodistrofia congênita generalizada
Também chamada de síndrome de Berardinelli-Seip, é uma forma rara e grave causada por mutações genéticas que resultam em ausência quase total de gordura subcutânea e visceral desde o nascimento. Os bebês afetados têm aparência muscular muito evidente, com veias salientes e praticamente nenhuma gordura visível sob a pele.
As complicações metabólicas são intensas e costumam aparecer precocemente: diabetes grave, triglicerídeos muito elevados com risco de pancreatite aguda, esteatose hepática e características acromegaloides, como mãos e pés aumentados e traços faciais marcados. A maioria dos casos é causada por mutações nos genes AGPAT2 ou BSCL2.
Lipodistrofia parcial familiar
É uma forma hereditária em que a perda de gordura acontece de forma seletiva – geralmente nos membros e no tronco – com acúmulo compensatório de gordura na face, no pescoço e na região abdominal. Costuma se manifestar na puberdade.
A forma mais comum de lipodistrofia parcial familiar é a do tipo Dunnigan, frequentemente causada por variantes no gene LMNA, que codifica as laminas A e C, proteínas estruturais da lâmina nuclear. As complicações metabólicas são semelhantes às da forma generalizada, mas geralmente menos graves.
Lipodistrofia adquirida generalizada
Também chamada de síndrome de Lawrence, é uma forma adquirida, em que a perda generalizada de gordura acontece gradualmente ao longo da infância ou da adolescência. A causa nem sempre é identificada. Alguns casos estão associados a doenças autoimunes ou são precedidos por episódios de paniculite, enquanto outros permanecem classificados como idiopáticos.
Lipodistrofia parcial adquirida
Também conhecida como síndrome de Barraquer-Simons, é a forma adquirida mais comum. A perda de gordura começa no rosto e progride para o pescoço, os braços e o tronco, poupando as pernas e os glúteos – que podem até ter acúmulo de gordura. Está frequentemente associada a alterações do sistema imunológico, especialmente à ativação do complemento.
Outras condições também podem causar alterações na distribuição do tecido adiposo e receber a denominação de lipodistrofia, embora tenham mecanismos distintos das síndromes raras descritas acima.
Lipodistrofia associada ao HIV
A lipodistrofia associada ao HIV foi observada principalmente em pacientes expostos a esquemas antirretrovirais mais antigos, especialmente à stavudina e à zidovudina. Com a adoção de medicamentos mais modernos, as formas graves de lipoatrofia tornaram-se menos frequentes.
Lipodistrofia localizada por insulina
Acontece no local das aplicações repetidas de insulina, especialmente quando não há rotação dos pontos de injeção. Pode se manifestar como lipoatrofia (depressão no local) ou lipo-hipertrofia (endurecimento e acúmulo de gordura). A lipo-hipertrofia é a forma mais comum e pode prejudicar a absorção da insulina, dificultando o controle glicêmico.
Fatores de risco
Os fatores de risco variam conforme o tipo de lipodistrofia. Nas formas hereditárias, o diagnóstico genético ajuda a identificar o tipo e orientar o tratamento. Algumas formas seguem padrão autossômico recessivo, em que a criança precisa herdar uma cópia alterada de cada um dos pais. Já outras seguem padrão dominante, em que uma única cópia do gene alterado já é suficiente para causar a doença. Histórico familiar de lipodistrofia ou de diabetes grave e precoce sem causa aparente são sinais de alerta.
Nas formas adquiridas, os principais fatores são:
- Infecção pelo HIV e uso prolongado de antirretrovirais, especialmente os mais antigos;
- Doenças autoimunes, como lúpus eritematoso sistêmico e dermatomiosite;
- Uso de insulina sem rotação dos pontos de aplicação, para a forma localizada;
- Radioterapia na região afetada, para a forma localizada pós-irradiação.
O uso de corticoides em altas doses ou por tempo prolongado também pode produzir redistribuição de gordura com fenótipo cushingoide, e inclusive mimetizar algumas formas de lipodistrofia parcial. A síndrome de Cushing figura, portanto, como diagnóstico diferencial da síndrome lipodistrófica clássica.
Sintomas
Os sintomas da lipodistrofia dependem do tipo e da extensão da perda ou redistribuição de gordura. Eles se dividem em dois grupos: as alterações físicas visíveis e as complicações metabólicas.
As alterações físicas mais comuns são:
- Perda de gordura no rosto, com aparência envelhecida e veias salientes;
- Perda de gordura nos membros e nos glúteos;
- Acúmulo de gordura abdominal, mesmo com membros finos;
- Acúmulo de gordura nas costas, no pescoço e nos seios;
- Aparência muscular exacerbada – especialmente nas formas generalizadas;
- Alterações nos pontos de aplicação de insulina.
As complicações metabólicas mais frequentes são:
- Resistência à insulina e diabetes mellitus, muitas vezes grave e de difícil controle;
- Triglicerídeos muito elevados – com risco de pancreatite aguda nos casos mais graves;
- Esteatose hepática – acúmulo de gordura no fígado, que pode evoluir para cirrose;
- Dislipidemia – alterações no colesterol e nas gorduras do sangue;
- Síndrome metabólica e maior risco cardiovascular;
- Amenorreia e irregularidade menstrual – nas mulheres.
Em muitos casos, são as complicações metabólicas – e não as alterações físicas – que levam ao diagnóstico. Um jovem com diabetes grave e triglicerídeos muito elevados sem obesidade deve levantar suspeita de lipodistrofia.
Qual médico procurar?
O especialista indicado para o diagnóstico e o tratamento das lipodistrofias é o endocrinologista, que é o médico especializado em doenças metabólicas e hormonais. Por ser uma condição rara, muitas vezes é acompanhada em centros de referência para doenças raras.
Dependendo das complicações presentes, outros profissionais podem ser envolvidos no cuidado:
- Hepatologista – quando há esteatose hepática avançada ou cirrose;
- Cardiologista – pelo risco cardiovascular elevado;
- Médico Geneticista – para investigação das formas hereditárias e aconselhamento genético familiar;
- Nutricionista – para orientação dietética específica, fundamental no manejo metabólico;
- Dermatologista ou cirurgião plástico – nos casos em que as alterações estéticas afetam a qualidade de vida.
Exames que auxiliam no diagnóstico da lipodistrofia
O diagnóstico começa pela avaliação clínica, com análise do histórico, da distribuição da gordura corporal e das alterações metabólicas. Exames laboratoriais avaliam as complicações; métodos de composição corporal podem auxiliar na caracterização da perda de gordura; e o teste genético pode confirmar determinadas formas hereditárias.
Os principais exames solicitados são:
- Exame de sangue completo: hemograma, glicemia, insulina, hemoglobina glicada, função hepática e renal.
- Lipidograma: dosagem de colesterol total, frações e triglicerídeos. Triglicerídeos muito elevados são um achado frequente, especialmente nas formas generalizadas.
- Leptina sérica: pode estar muito reduzida, sobretudo nas formas generalizadas. Sua dosagem não confirma isoladamente o diagnóstico, mas pode contribuir para a avaliação terapêutica em situações específicas.
- Ultrassonografia abdominal: avalia o fígado e identifica esteatose; a elastografia pode estimar a fibrose.
- Ressonância magnética: avalia a composição corporal, permitindo quantificar com precisão a gordura subcutânea e visceral em diferentes regiões do corpo.
- DXA/absorciometria por dupla energia: avalia composição corporal como método auxiliar.
Painel NGS para diabetes monogênicas e lipodistrofias
Para os casos em que há suspeita de lipodistrofia genética, a Dasa Genômica oferece o Painel NGS para Diabetes Monogênicas e Lipodistrofias. O exame utiliza tecnologia de sequenciamento de nova geração (NGS) para analisar os principais genes associados às formas hereditárias de lipodistrofia – incluindo AGPAT2, BSCL2, LMNA, PPARG, AKT2, entre outros.
O painel é especialmente indicado para:
- Pacientes com diabetes grave de início precoce sem causa aparente;
- Pessoas com triglicerídeos muito elevados associados a sinais clínicos ou metabólicos sugestivos de lipodistrofia;
- Casos de lipodistrofia parcial ou generalizada com suspeita de causa genética;
- Histórico familiar de lipodistrofia ou diabetes monogênica.
O resultado pode confirmar a causa genética, auxiliar no aconselhamento genético familiar e contribuir para a definição do acompanhamento clínico. A indicação de tratamentos específicos depende também do tipo de lipodistrofia e das manifestações metabólicas apresentadas pelo paciente.
Tratamentos para a lipodistrofia
O tratamento da lipodistrofia depende do tipo, da extensão e das complicações metabólicas de cada paciente. Não existe cura para as formas genéticas. O objetivo é controlar as complicações e melhorar a qualidade de vida.
Manejo das complicações metabólicas
É o que norteia o tratamento em todos os tipos de lipodistrofia:
- Diabetes: o controle glicêmico costuma ser desafiador, especialmente nas formas generalizadas. Pode exigir doses elevadas de insulina ou combinações de medicamentos;
- Triglicerídeos elevados: dieta com restrição de gorduras é fundamental, podendo ser necessário o uso de medicamentos;
- Esteatose hepática: além do controle metabólico, mudanças na dieta e atividade física regular são essenciais;
- Dislipidemia: estatinas e fibratos conforme o perfil lipídico de cada paciente.
Reposição de metreleptina
A metreleptina é um análogo da leptina utilizado como terapia de reposição para determinadas formas de lipodistrofia. No Brasil, é aprovada para pacientes a partir dos 2 anos com lipodistrofia generalizada congênita ou adquirida e, a partir dos 12 anos, para determinadas formas parciais quando o tratamento habitual não proporciona controle metabólico adequado.
Além de reduzir o apetite e melhorar o controle metabólico, a metreleptina melhora os triglicerídeos, a glicemia e a função hepática; e pode ter impacto positivo na fertilidade.
Dieta e estilo de vida
Dietas com restrição de gorduras saturadas e açúcar simples ajudam a controlar os triglicerídeos e a resistência à insulina. A atividade física regular melhora a sensibilidade à insulina e contribui para o controle metabólico geral.
Tratamento da lipodistrofia associada ao HIV
Nos casos relacionados ao tratamento antirretroviral, a substituição dos medicamentos mais associados à lipodistrofia por opções mais modernas e com melhor perfil metabólico pode melhorar parcialmente o quadro.
Em alguns casos, procedimentos estéticos para corrigir a perda de gordura no rosto – como preenchimento com ácido hialurônico ou polimetilmetacrilato – são indicados para melhorar a qualidade de vida.