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    Polipose adenomatosa familiar: síndrome transforma pólipos em câncer

    Sem tratamento, quase 100% dos casos evoluem para carcinoma colorretal

    Fonte: Dr. Gustavo Guida Godinho da FonsecaGeneticista e Coordenador médico da Triagem Neonatal da DasaPublicado em 25/09/2026, às 11:44 - Atualizado em 25/09/2026, às 11:44

    Polipose adenomatosa familiar

    A polipose adenomatosa familiar é uma das condições genéticas mais monitoradas na oncologia digestiva. Quem tem a síndrome desenvolve centenas ou até milhares de pólipos no intestino grosso – e, sem intervenção, esses pólipos se tornam câncer, na maioria dos casos. 

    O que muda esse cenário é o diagnóstico precoce. Identificada a tempo, a condição pode ser manejada com vigilância endoscópica e cirurgia preventiva, protegendo o paciente e rastreando os familiares que também podem estar em risco.

    Polipose adenomatosa familiar: o que é? 

    A polipose adenomatosa familiar – também chamada de PAF ou FAP, da sigla em inglês – é uma síndrome hereditária de predisposição ao câncer colorretal, causada por mutações no gene APC (adenomatous polyposis coli), na forma clássica, e outros genes. 

    Ela é caracterizada pelo surgimento de múltiplos pólipos no intestino – inicialmente no cólon e no reto – que, sem tratamento, evoluem para carcinoma colorretal muito precocemente. 

    Pólipos no intestino: conheça as causas e sintomas 

    Os pólipos no intestino são alterações causadas pelo crescimento anormal da mucosa do cólon e reto. Saiba mais.

    Existem dois tipos principais: 

    • PAF clássica: os pacientes desenvolvem centenas a milhares de pólipos adenomatosos no cólon, geralmente a partir da adolescência. Sem intervenção, o risco de câncer colorretal chega a quase 100% antes dos 40 anos; 
    • PAF atenuada (AFAP): forma mais leve, com menor número de pólipos – geralmente entre 10 e 100 – e surgimento mais tardio. O risco de câncer ainda é muito elevado, mas o diagnóstico e a progressão ocorrem em idades mais avançadas. 

    Além dos pólipos intestinais, a PAF pode causar manifestações extracolônicas, como pólipos no estômago e no duodeno, tumores desmoide, osteomas, cistos epidermoides e alterações na retina – que fazem parte do chamado espectro da síndrome. 

    Principais causas 

    A polipose adenomatosa familiar é causada por mutações germinativas no gene APC, localizado no cromossomo 5. O gene APC é um supressor tumoral: sua função normal é impedir que as células cresçam de forma descontrolada. Quando está mutado, essa função se perde e os pólipos se formam. 

    A maioria dos casos de PAF clássica têm uma mutação identificável no gene APC. Outros genes podem ter mutações associadas à polipose, como o MUTYH, que causa uma condição semelhante com padrão de herança diferente. 

    A herança é autossômica dominante: se um dos pais é portador da mutação, cada filho tem 50% de chance de herdá-la. No entanto, até 30% dos casos não têm histórico familiar identificável – a mutação surge de forma espontânea, sem ser herdada dos pais. 

    Sintomas da Polipose adenomatosa familiar 

    A polipose adenomatosa familiar costuma ser assintomática nas fases iniciais – os pólipos crescem silenciosamente no intestino, sem causar nenhum desconforto perceptível. Na PAF clássica, os primeiros pólipos surgem tipicamente entre os 10 e os 20 anos de idade, mas os sintomas só aparecem quando os pólipos já são numerosos ou quando algum deles evoluiu para câncer. 

    Os sintomas mais comuns, quando presentes, são: 

    • Sangramento retal ou sangue nas fezes; 
    • Alteração do hábito intestinal: diarreia, constipação ou alternância entre os dois; 
    • Dor ou desconforto abdominal; 
    • Muco nas fezes; 
    • Anemia por perda crônica de sangue; 
    • Perda de peso sem causa aparente: sinal de alerta para doença mais avançada. 

    As manifestações extracolônicas também podem chamar atenção antes do diagnóstico intestinal: 

    • Cistos epidermoides na pele; 
    • Osteomas: protuberâncias ósseas, especialmente na mandíbula; 
    • Dentes extras ou anormalidades dentárias; 
    • Manchas na retina (hipertrofia congênita do epitélio pigmentar da retina – CHRPE), visíveis ao exame de fundo de olho; 
    • Tumores desmoides: massas fibrosas no abdômen ou na parede abdominal, que podem surgir após cirurgias.

    Quando procurar por um médico? 

    A PAF raramente é diagnosticada a partir dos sintomas, sendo que o diagnóstico ideal acontece antes deles aparecerem, por rastreamento genético e endoscópico em pessoas com risco aumentado. 

    Procure avaliação médica se: 

    • Há histórico familiar de polipose adenomatosa familiar ou de câncer colorretal precoce (antes dos 50 anos); 
    • Um familiar de primeiro grau foi diagnosticado com PAF; 
    • Você apresenta sangramento retal, alteração persistente do hábito intestinal ou anemia sem causa identificada; 
    • Surgiram manifestações extracolônicas sugestivas da síndrome: cistos epidermoides múltiplos, osteomas ou alterações dentárias inexplicadas. 

    O especialista indicado para o diagnóstico e o acompanhamento da PAF é o gastroenterologista ou coloproctologista, com suporte do geneticista clínico para aconselhamento genético e rastreamento dos familiares. 

    Exames que auxiliam no diagnóstico 

    O diagnóstico da PAF combina avaliação endoscópica e teste genético. Os dois se complementam: a endoscopia identifica os pólipos; a genética confirma a causa e permite rastrear os familiares antes do surgimento dos pólipos. 

    Os principais exames utilizados são: 

    • Colonoscopia: é o exame fundamental para identificar e avaliar os pólipos no cólon e no reto. Permite visualizar diretamente os pólipos, avaliar sua quantidade, tamanho e distribuição, e coletar biópsias para análise histológica. Na PAF clássica, a presença de 100 ou mais pólipos adenomatosos é critério diagnóstico. Na forma atenuada, o número é menor, mas o padrão familiar e o resultado genético completam o diagnóstico; 
    • Retossigmoidoscopia: alternativa à colonoscopia para rastreamento inicial em jovens com risco familiar, pois a maioria dos pólipos da PAF clássica se concentra no retossigmoide na fase inicial; 
    • Endoscopia digestiva alta: indicada para avaliar pólipos no estômago e no duodeno – especialmente na papila duodenal, onde o risco de malignização é maior.

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    Pesquisa de mutação específica gene apc 

    A Dasa Genômica também realiza o Painel NGS Para Câncer Colorretal Poliposo com CNV, indicado para a investigação de casos novos, ainda sem diagnóstico genético. Esse exame analisa todos os genes associados as síndromes de polipose adenomatoide amiliar, fem busca de variants de ponto e variações no número de cópias (CNVs), com a capacidade de diagnosticar tanto as formas clássicas como a forma atenuada e formas atípicas. 

    Quando a mutação familiar já foi identificada em um parente afetado, a Pesquisa de Mutação Específica é o exame indicado para investigar os demais membros da família. O teste sequencia a variante já conhecida e determina se o familiar testado é ou não portador da mutação. 

    O exame é indicado para: 

    • Filhos, irmãos e outros parentes de primeiro grau de pacientes com PAF confirmada; 
    • Aconselhamento genético pré-reprodutivo; 
    • Rastreamento de portadores assintomáticos antes do surgimento dos pólipos: quando o diagnóstico precoce ainda pode mudar o curso da doença. 

    Todos os exames exigem pedido médico, preenchimento do questionário clínico e assinatura do termo de consentimento. Não é necessário jejum para coleta de sangue.

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    Tratamentos para a Polipose adenomatosa familiar 

    O tratamento da PAF é essencialmente cirúrgico e depende do tipo da síndrome, do número e do tamanho dos pólipos, da idade do paciente e da presença de câncer. 

    Vigilância endoscópica 

    Na fase inicial – especialmente na PAF atenuada, quando o número de pólipos ainda é pequeno – a colonoscopia de vigilância permite remover individualmente os pólipos (polipectomia) durante o próprio exame. Essa abordagem adia a necessidade de cirurgia, mas exige colonoscopias regulares, geralmente a cada 1 ou 2 anos. 

    Cirurgia preventiva (colectomia)

    Na PAF clássica, a cirurgia é inevitável. O grande número de pólipos torna impossível o controle apenas pela endoscopia e o risco de câncer é alto demais para postergar a intervenção. A maioria dos pacientes com PAF clássica é operada entre o final da adolescência e os 30 anos. 

    As principais opções cirúrgicas são: 

    • Colectomia total com anastomose ileorretal (AIR): retirada de todo o cólon, mantendo o reto. O intestino delgado é conectado diretamente ao reto. Exige vigilância endoscópica do reto remanescente ao longo da vida, pois novos pólipos podem surgir; 
    • Proctocolectomia total com bolsa ileal (IPAA): retirada do cólon e do reto, com criação de um reservatório a partir do intestino delgado conectado ao ânus. É a opção preferida quando há muitos pólipos no reto ou quando o risco de câncer retal é maior. Preserva a continência fecal, mas é tecnicamente mais complexa. 

    Acompanhamento após a cirurgia 

    Mesmo após a colectomia, o acompanhamento não termina. Pacientes com PAF têm risco aumentado de: 

    • Pólipos e câncer no duodeno e na papila: exigem endoscopia digestiva alta periódica; 
    • Tumores desmoides abdominais: especialmente após cirurgias; 
    • Câncer em outros órgãos: tireoide, fígado e sistema nervoso central, em casos associados a mutações específicas.

     

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