Gravidez ectópica: tipos, sintomas e tratamento
A forma tubária é a mais comum, e a ruptura da trompa é uma emergência médica

Em uma gestação normal, o embrião se fixa na parede interna do útero, onde tem espaço e condições para se desenvolver até o fim da gravidez. Na gravidez ectópica que representa cerca de 1% a 2% de todas as gestações -, essa implantação acontece fora da cavidade uterina.
Como nenhum outro órgão do corpo feminino tem estrutura para sustentar o desenvolvimento de um embrião, a gravidez ectópica não pode evoluir até o fim. Além disso, à medida que o embrião cresce, pode causar ruptura do órgão onde está implantado, provocando sangramento interno grave. Trata-se de uma emergência médica que coloca a vida da mulher em risco.
Neste artigo, você vai ler:
Gravidez ectópica: o que é?
A gravidez ectópica acontece quando o óvulo fecundado não chega ao útero e se fixa em outro lugar. Em condições normais, após a fecundação nas trompas de Falópio, o embrião percorre o caminho até a cavidade uterina e ali se implanta. Quando esse trajeto é interrompido por algum problema (geralmente nas próprias trompas), o embrião se aloja onde não deve.
A palavra “ectópico” vem do grego e significa “fora do lugar”. É exatamente o que acontece: o embrião cresce em um ambiente que não tem capacidade de sustentá-lo. Sem espaço e sem suporte adequado, a gestação não é viável e o tecido ao redor pode se romper, causando hemorragia interna.
Por isso, toda suspeita de gravidez ectópica deve ser investigada com urgência. Quanto mais cedo o diagnóstico, maiores as chances de um tratamento menos invasivo e com menor risco de complicações.
Tipos de gravidez ectópica
A gravidez ectópica é classificada de acordo com o local onde o embrião se implantou. Os tipos são:
Tubária
É o tipo mais comum, responsável por cerca de 95% dos casos. O embrião se fixa em algum ponto da trompa de Falópio, mais frequentemente na porção chamada ampola. Como as trompas são estruturas tubulares e estreitas, o embrião não tem espaço para crescer. O risco de ruptura da trompa é a principal preocupação nesse tipo.
Cervical
O embrião se implanta no colo do útero, fora da cavidade endometrial. É um tipo mais raro, com risco elevado de sangramento intenso, já que o colo do útero tem rica vascularização.
Ovariana
O embrião se fixa no próprio ovário. Também rara, pode ser difícil de distinguir de uma gravidez tubária por meio de exames de imagem.
Abdominal
O embrião se desenvolve na cavidade abdominal, entre os órgãos abdominais. É a forma mais rara, com incidência menor que 1% das gestações ectópicas. Pode ser primária (implantação direta na cavidade abdominal) ou secundária (quando a gravidez tubária se rompe e o embrião se reimplanta na cavidade).
Em cicatriz de cesárea
Tipo emergente e cada vez mais documentado na literatura científica. O embrião se implanta na cicatriz de uma cesariana anterior. Tem alta taxa de complicações, incluindo risco de ruptura uterina e hemorragia grave.
Fatores de risco
A gravidez ectópica pode acontecer em qualquer mulher em idade fértil, mas alguns fatores aumentam significativamente o risco. O principal mecanismo é qualquer condição que dificulte ou impeça o deslocamento normal do embrião pelas trompas.
Os fatores de risco mais frequentes são:
- Histórico de gravidez ectópica anterior: é o maior fator de risco individual. Quem já teve uma gravidez ectópica tem risco aumentado de ter outra;
- Cirurgias nas trompas: incluindo cirurgias para laqueadura, reverter laqueadura ou tratar uma gravidez ectópica anterior. Cicatrizes e aderências nas trompas dificultam o trajeto do embrião;
- Infecções sexualmente transmissíveis (ISTs): especialmente a clamídia e a gonorreia, que podem causar salpingite (inflamação das trompas) levando a cicatrizes e obstruções;
- Endometriose: o tecido endometrial fora do útero pode se fixar nas trompas, comprometendo seu funcionamento;
- Doença inflamatória pélvica (DIP): infecção do trato reprodutivo feminino que pode causar aderências e danos às trompas;
- Cesariana anterior: a cicatriz no útero pode criar um ponto de implantação anômalo;
- Uso de dispositivo intrauterino (DIU): o DIU é eficaz para prevenir gestações intrauterinas, mas quando uma gravidez acontece com o DIU em uso, há maior probabilidade de ser ectópica;
- Fertilização in vitro (FIV) e outras técnicas de reprodução assistida: aumentam levemente o risco;
- Tabagismo: interfere na motilidade das trompas, dificultando o deslocamento do embrião.
Sintomas de gravidez ectópica
Os sintomas da gravidez ectópica costumam aparecer entre a 4ª e a 8ª semana de gestação, geralmente antes que a mulher saiba que está grávida ou logo após confirmar a gravidez.
Os mais comuns são dor abdominal ou pélvica – que pode ser em um lado específico, onde o embrião está implantado – e sangramento vaginal leve, diferente do fluxo menstrual habitual. Junto a esses dois sinais, podem aparecer sintomas típicos de gravidez, como atraso menstrual, náuseas e sensibilidade nos seios.
O problema é que esses sintomas iniciais se parecem com os de um aborto espontâneo ou até com uma menstruação irregular, o que pode atrasar a busca por atendimento médico.
Quando a trompa se rompe, os sintomas ficam muito mais intensos e urgentes:
- Dor abdominal súbita, intensa e em piora rápida;
- Dor que irradia para o ombro, causada pelo sangue que se acumula na cavidade abdominal e irrita o diafragma;
- Tontura, fraqueza e sensação de desmaio;
- Pressão arterial baixa e frequência cardíaca acelerada, sinais de hemorragia interna;
- Palidez intensa.
Esses sinais indicam uma emergência médica. A mulher deve ser levada imediatamente ao pronto-socorro. O sangramento interno pode ser rápido e grave e, sem intervenção imediata, coloca a vida em risco.
Exames que auxiliam no diagnóstico da gravidez ectópica
O diagnóstico da gravidez ectópica é feito pela combinação de dois exames principais: o Beta HCG quantitativo no sangue e o ultrassom obstétrico transvaginal.
Beta HCG quantitativo
Confirma a gravidez e permite monitorar sua evolução. Em uma gravidez normal, os níveis de Beta HCG sobem progressivamente: em média, dobram a cada 48 horas nas primeiras semanas. Na gravidez ectópica, esse aumento costuma ser mais lento ou irregular. O resultado do Beta HCG em série (com coletas repetidas) ajuda a identificar esse padrão anormal.
Ultrassom transvaginal
É o exame de imagem mais importante para o diagnóstico. Permite visualizar diretamente o saco gestacional e, quando ele não é encontrado dentro do útero, levanta forte suspeita de gravidez ectópica.
Em alguns casos, é possível visualizar o embrião implantado na trompa. Também avalia a presença de líquido livre na cavidade abdominal, um sinal de sangramento interno.
Outros exames que podem ser solicitados:
- Histerossalpingografia: avalia as trompas e a cavidade uterina. Indicada após a resolução da gravidez ectópica para avaliar possíveis danos às trompas e planejar futuras gestações.
- Laparoscopia diagnóstica: em casos em que o diagnóstico não fica claro pelos exames de imagem e laboratoriais, a laparoscopia permite visualizar diretamente a cavidade pélvica. É considerada o padrão-ouro diagnóstico e, quando necessário, o tratamento pode ser realizado no mesmo procedimento.
- Hemograma e coagulograma: avaliados nos casos com suspeita de sangramento interno, para orientar a conduta médica de urgência.
Formas de tratamento
O tratamento da gravidez ectópica depende do estágio em que é diagnosticada, do local de implantação, do nível de Beta HCG, do tamanho da massa ectópica e das condições clínicas da paciente.
Tratamento medicamentoso
Indicado nos casos diagnosticados precocemente, quando a gravidez ectópica ainda não rompeu, o Beta HCG está abaixo de determinado nível e a paciente está clinicamente estável. O medicamento usado é o metotrexato e ele impede a multiplicação das células do embrião, fazendo a gravidez regredir.
O tratamento pode ser feito com uma ou mais doses, com acompanhamento rigoroso do Beta HCG até que ele caia a níveis indetectáveis.
Tratamento cirúrgico
É indicado quando a gravidez ectópica está rompida ou em risco de ruptura, quando o Beta HCG está elevado, quando a massa ectópica é grande ou quando o metotrexato está contraindicado.
A via preferencial é a laparoscopia, uma cirurgia minimamente invasiva que permite menor sangramento, recuperação mais rápida e menor formação de aderências.
Durante a cirurgia, o médico pode realizar:
- Salpingostomia: abertura da trompa para retirar o embrião, preservando a trompa. Indicada quando a trompa ainda está íntegra e a mulher deseja preservar a fertilidade.
- Salpingectomia: retirada da trompa afetada. Indicada quando a trompa está muito danificada ou quando há recorrência no mesmo local.
Em casos de ruptura com hemorragia intensa e instabilidade hemodinâmica, a laparotomia (cirurgia aberta) pode ser necessária para controlar o sangramento com rapidez.
A gravidez ectópica causa infertilidade?
Não necessariamente. Ter uma gravidez ectópica não significa perder a fertilidade, mas pode aumentar o risco de dificuldades para engravidar no futuro, dependendo do tratamento realizado e das condições das trompas.
Quando o tratamento é feito com metotrexato ou com salpingostomia (preservando a trompa), as chances de uma gestação normal futura são boas, desde que a outra trompa esteja saudável.
Após a salpingectomia (retirada da trompa), a mulher ainda pode engravidar naturalmente pela trompa restante, se ela estiver íntegra.
No entanto, quem já teve uma gravidez ectópica tem maior risco de ter outra. Por isso, em gestações futuras, é fundamental realizar o acompanhamento pré-natal desde o início, com ultrassom transvaginal precoce para confirmar a localização do embrião.
Para mulheres com histórico de gravidez ectópica que desejam engravidar e encontram dificuldades, a avaliação das trompas por histerossalpingografia pode ser recomendada.
Nos casos em que as trompas estão muito comprometidas, a fertilização in vitro (FIV) pode ser a alternativa mais indicada, já que o embrião é transferido diretamente para o útero, sem depender das trompas.